A tokenização está a remodelar a ordem financeira global

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Há 50 anos, o movimento de fundos exigia o envio por correio.

Há 20 anos, transações internacionais ainda levavam “dias” a processar.

Hoje, transações em milissegundos já deixaram de ser motivo de exaltação.

A verdadeira transformação não está na velocidade, mas sim na forma como “os ativos existem”.

O CEO da BlackRock, Larry Fink, e o COO, Rob Goldstein, traçaram um diagnóstico sóbrio para esta era: no futuro, ações, obrigações, imobiliário, fundos e até moedas tornar-se-ão “linhas de código em blockchain”.

Isto não é uma história sobre cripto, é o “momento de reconstrução” das finanças.

Há cinquenta anos, a circulação de fundos era tão lenta quanto o correio. Quando um de nós (Larry) iniciou a sua carreira em 1976, as transações eram feitas por telefone e liquidadas com comprovativos em papel enviados por estafeta. Em 1977, uma tecnologia chamada SWIFT permitiu a transmissão padronizada de informações eletrónicas entre bancos, reduzindo o tempo de liquidação de dias para minutos. Hoje, uma transação entre Nova Iorque e Londres é executada em milissegundos.

Atualmente, o setor financeiro está a entrar na próxima grande evolução da infraestrutura de mercado — uma evolução que pode transferir ativos de forma mais rápida e segura do que os sistemas que serviram os investidores durante décadas. Tudo começou em 2009, quando um programador sob o pseudónimo de Satoshi Nakamoto lançou o Bitcoin como um registo digital partilhado capaz de registar transações sem intermediários. Anos depois, a mesma tecnologia — blockchain — gerou algo ainda mais transformador: a Tokenização.

A tokenização implica o registo da propriedade num livro-razão digital. Isto permite que praticamente qualquer ativo, desde imóveis a dívida corporativa ou moeda, exista sob um único registo digital que os participantes podem verificar de forma independente. Inicialmente, o setor financeiro — nós incluídos — teve dificuldade em perceber a grandiosidade desta ideia. A tokenização confundia-se com a euforia das criptomoedas, que muitas vezes parecia apenas especulação. Mas nos últimos anos, as finanças tradicionais passaram a ver o que estava por baixo do entusiasmo: a tokenização pode expandir enormemente o universo de ativos investíveis, para além das ações e obrigações cotadas que hoje dominam os mercados.

Os ativos tokenizados trazem duas grandes vantagens. Primeiro, oferecem o potencial de liquidação imediata das transações. Atualmente, os mercados operam com diferentes prazos de liquidação, expondo compradores e vendedores ao risco de uma das partes não cumprir as suas obrigações. Padronizar a liquidação imediata a nível global seria mais um salto em frente, para além do que a SWIFT já alcançou.

Em segundo lugar, os ativos de mercados privados continuam fortemente dependentes do papel — processos manuais, liquidação personalizada e registos que não acompanharam o progresso do resto das finanças. A tokenização pode substituir o papel por código, reduzindo as fricções que tornam a negociação destes ativos dispendiosa e lenta. Pode transformar grandes participações não cotadas, como imobiliário ou infraestruturas, em unidades mais pequenas e acessíveis, alargando a participação num mercado historicamente dominado por grandes instituições.

A tecnologia sozinha não elimina todos os obstáculos. A regulamentação e a proteção do investidor continuam a ser essenciais. Mas, ao reduzir custos e complexidade, a tokenização pode oferecer a mais investidores mais formas de diversificar. Os primeiros sinais de progresso já estão à vista. Os tokens que representam ativos financeiros “do mundo real” (ações, obrigações, etc.) ainda representam uma pequena fatia dos mercados globais de ações e dívida, mas estão a crescer rapidamente — cerca de 300% nos últimos 20 meses.

Grande parte da adoção inicial ocorre no mundo em desenvolvimento, onde o acesso bancário é limitado. Quase três quartos dos detentores de criptomoedas vivem fora do Ocidente. Entretanto, as economias que construíram as finanças modernas — EUA, Reino Unido e União Europeia — estão a ficar para trás, pelo menos no que diz respeito ao local onde as transações acontecem. É certo que muitas das empresas com maior potencial para liderar a transição para sistemas financeiros tokenizados — incluindo os líderes em stablecoins — são americanas. Mas esta vantagem inicial não é garantida.

Se a história servir de guia, a tokenização de hoje é comparável à internet de 1996 — quando a Amazon tinha vendido apenas 16 milhões de dólares em livros e três dos atuais “sete gigantes” da tecnologia nem sequer existiam. A tokenização pode avançar ao ritmo da internet — mais rápido do que a maioria espera, com um crescimento massivo nas próximas décadas.

Não substituirá o sistema financeiro existente de um dia para o outro. Em vez disso, pode ser encarada como uma ponte a ser construída simultaneamente a partir das duas margens do rio, encontrando-se ao centro. De um lado, as instituições tradicionais. Do outro, os inovadores digitais: emissores de stablecoins, fintechs e blockchains públicas.

Mais do que competir, ambos procuram aprender a interoperar. No futuro, as pessoas não vão manter ações e obrigações numa carteira de investimento e cripto noutra. Todos os tipos de ativos poderão um dia ser comprados, vendidos e detidos através de uma única carteira digital.

A tarefa dos decisores políticos e reguladores é clara: ajudar a construir esta ponte de forma rápida e segura. A melhor abordagem não é criar um novo manual de regras para mercados digitais, mas atualizar as regras existentes para que mercados tradicionais e tokenizados possam funcionar em conjunto.

Já vimos o poder desta ligação. Os primeiros ETFs de mercados emergentes ligaram bolsas de mais de 20 países num único fundo, facilitando o investimento global. Os ETFs de obrigações fizeram o mesmo pelas fixed income, unindo mercados de dealers a bolsas públicas e permitindo transações mais eficientes. Agora, com ETFs de Bitcoin à vista, até os ativos digitais estão presentes em bolsas tradicionais. Cada inovação construiu pontes.

O mesmo princípio aplica-se à tokenização. Os reguladores devem ser consistentes: o risco deve ser avaliado pela sua essência, e não pela sua forma. Mesmo que uma obrigação exista na blockchain, continua a ser uma obrigação.

Mas a inovação precisa de “barreiras de proteção”: medidas claras de proteção do investidor, para garantir que os produtos tokenizados são seguros e transparentes; normas rigorosas de risco de contraparte, para evitar que choques se propaguem pelas plataformas; e sistemas de verificação de identidade digital para que quem quer negociar e investir tenha o mesmo grau de confiança que sente ao usar um cartão ou fazer uma transferência bancária.

Andrew Ross Sorkin, no seu novo livro sobre a crise bolsista de 1929, revisita os fracassos que levaram ao nascimento do sistema financeiro moderno. Alguns foram técnicos: na “Terça-feira Negra”, as máquinas de cotações estavam atrasadas por horas, incapazes de acompanhar o aumento do volume de transações. Outros foram institucionais: um sistema financeiro que evoluiu mais depressa do que as medidas de segurança.

A tokenização pode modernizar a infraestrutura que ainda torna certas partes do sistema financeiro lentas e dispendiosas, trazendo mais pessoas para o motor de criação de riqueza mais poderoso do mundo: o mercado. Mas, como nos ensinou 1929, cada vaga de alargamento da participação tem de ser acompanhada por salvaguardas atualizadas. A tokenização tem de fazer duas coisas: crescer mais depressa e crescer de forma segura, construindo confiança.

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