A segunda metade das stablecoins não pertence mais ao mundo das criptomoedas

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Autor: Blockchain em linguagem simples

17 de março de 2026, Mastercard anunciou a aquisição da BVNK por até 1,8 mil milhões de dólares.

Este nome, quase ninguém fora do mundo cripto conhece. Mas há quatro meses, Coinbase esteve disposta a pagar 2 mil milhões por ela, durante a fase de due diligence, e acabou por desistir na última hora.

Um gigante das trocas de criptomoedas perdeu algo, e um gigante tradicional de pagamentos aproveitou imediatamente, ainda por cima com um desconto de 10%.

O sinal desta operação não podia ser mais claro: a luta pela infraestrutura de stablecoins já saiu do universo cripto e se estende ao coração do sistema financeiro tradicional.

O que a Mastercard realmente comprou?

Vamos falar primeiro daquela aquisição que não se concretizou.

Em outubro de 2025, Coinbase e BVNK assinaram um acordo de exclusividade para negociações, com uma oferta de cerca de 2 mil milhões de dólares. Após a fase de due diligence, ambos anunciaram em novembro que não avançariam. As razões não foram divulgadas, mas especulações no setor apontam para alguns motivos: como exchange de criptomoedas, a Coinbase enfrenta uma fiscalização regulatória muito mais rigorosa do que as instituições financeiras tradicionais; além disso, a Coinbase está a direcionar mais recursos para o crescimento interno da sua blockchain Base, e gastar 2 mil milhões numa intermediária de pagamentos pode não ser a melhor estratégia.

A Mastercard entrou quase ao mesmo tempo que a Coinbase recuou, e com uma velocidade impressionante, desde a negociação até ao fechamento do negócio.

A estrutura da transação inclui 1,5 mil milhões de dólares em pagamento antecipado em dinheiro, mais 300 milhões de dólares em earn-out. Considerando que a BVNK foi avaliada em apenas 750 milhões na sua última ronda de financiamento em dezembro de 2024, o valor de 1,8 mil milhões representa mais do que o dobro em pouco mais de um ano. Este prémio não é por tecnologia, mas por licenças e infraestrutura.

Um dado interessante: em outubro de 2024, a Stripe adquiriu a empresa de stablecoins Bridge por 1,1 mil milhões de dólares. Um ano e meio depois, a Mastercard oferece 1,8 mil milhões por BVNK. A valorização da infraestrutura de stablecoins continua a subir. O poder de definição de preços neste setor está a passar dos fundos de capital de risco cripto para os CFOs do sistema financeiro tradicional.

O que é que a BVNK realmente vende?

Vamos a um exemplo:

Um empresário de Guangzhou que exporta brinquedos de peluche precisa receber pagamentos de clientes na Nigéria a cada trimestre. O método tradicional passa por uma corretora: o dinheiro sai do banco na Nigéria, passa por pelo menos dois bancos intermediários, com várias taxas, e chega ao destino em 2 a 3 dias. Se for fim de semana ou se os bancos africanos estiverem em manutenção, pode demorar mais dois dias.

A BVNK faz o que chama de “sandwich de stablecoins”: na frente, recebe a moeda local, no backend converte automaticamente para USDC, transmite via blockchain, e no destino converte de novo na moeda local. Todo o processo pode ser feito em poucos minutos, com custos muito inferiores às transferências tradicionais.

Mas essa não é a parte mais valiosa da BVNK. Existem outras empresas que fazem algo semelhante, como a Fireblocks ou a Circle. A verdadeira vantagem competitiva da BVNK são as licenças que possui.

Na Inglaterra, ela obteve a licença de instituição de moeda eletrônica (EMI) ao adquirir a System Pay Services, emitida pela FCA. Na União Europeia, obteve a licença CASP sob o quadro do MiCA, que permite operar em toda a EEE. Além disso, cobre mais de 130 países com conversões de moeda fiduciária, processando cerca de 30 mil milhões de dólares por ano, com clientes como Worldpay, Flywire e dLocal — grandes nomes do setor de pagamentos.

Resumindo, a BVNK é uma infraestrutura de stablecoins com licença global. Num contexto de regulamentação cada vez mais rigorosa, essa licença vale mais do que qualquer tecnologia.

A verdadeira intenção da Mastercard: preencher a peça que falta no MTN

A Mastercard não comprou a BVNK por impulso.

Nos últimos dois anos, ela tem desenvolvido uma rede chamada Multi-Token Network (MTN) — uma blockchain privada e permissionada, criada para facilitar a liquidação de depósitos bancários tokenizados, stablecoins reguladas e ativos tokenizados. O JPMorgan e o Standard Chartered já fizeram testes na plataforma.

Porém, o ponto fraco do MTN é que é uma rede fechada, com falta de pontes eficientes para o mundo das blockchains públicas. Pode-se imaginar o MTN como uma autoestrada bem construída, mas sem rampas de acesso às ruas das cidades.

A BVNK é exatamente essa rampa de acesso.

Após a aquisição, as possibilidades para a Mastercard aumentam exponencialmente. Pagamentos atomicos — transferência de pagamento e propriedade ao mesmo tempo, sem esperar os 2 a 3 dias do ACH ou SWIFT. Liquidação B2B internacional 24/7, sem depender do horário bancário. Além disso, pagamentos programáveis: por exemplo, uma fatura de fornecedor só é liberada após confirmação de envio na logística, com validação por oráculos na blockchain, ativando automaticamente o pagamento em stablecoins.

A Mastercard também possui um sistema chamado Crypto Credential, que substitui endereços de carteira complexos por nomes legíveis (semelhantes a endereços de email), garantindo que cada transação cumpra as regras de viagem do FATF. A infraestrutura da BVNK se conecta diretamente a esse sistema de autenticação, permitindo que comerciantes recebam stablecoins sem precisar lidar com chaves privadas.

Aqui, é importante notar a diferenciação entre a Mastercard e a Visa. A Visa aposta na estratégia de “fazer amigos” — colaborando com Solana, integrando-se profundamente com Circle, e criando uma plataforma de ativos tokenizados chamada VTAP, focada no varejo e no USDC. A Mastercard, por outro lado, optou por uma estratégia de “comprar e integrar” — adquirindo infraestrutura essencial, construindo sua própria rede multi-chain e multi-ativo, com foco em liquidação B2B de grande volume.

Qual dessas estratégias é melhor? Não se sabe. Mas a Mastercard está a investir numa via mais cara e mais irreversível.

A lei GENIUS: o verdadeiro catalisador desta operação

A Mastercard pode gastar 1,8 mil milhões de dólares porque há uma condição prévia: em julho de 2025, o presidente dos EUA assinou a Lei GENIUS.

Esta é a primeira legislação federal nos EUA que regula de forma abrangente as stablecoins. Ela define que “pagamentos em stablecoins” não são valores mobiliários nem commodities, ficando sob supervisão do OCC, o órgão regulador bancário. Exige que os emissores mantenham reservas de liquidez 1:1, auditadas mensalmente. Mesmo em caso de falência do emissor, os detentores têm prioridade sobre as reservas.

Resumindo: as stablecoins deixam de ser uma área cinzenta. Para uma empresa listada como a Mastercard, isso significa que o conselho pode aprovar aquisições de grande porte sem medo de uma intervenção da SEC no meio da noite.

Ao adquirir uma entidade licenciada em vários países, como a BVNK, a Mastercard na verdade compra uma “vaga regulatória”. Sob o quadro da Lei GENIUS, ela pode gerir e emitir stablecoins de pagamento de forma mais livre, com custos de conformidade significativamente reduzidos.

Por que a Coinbase não conseguiu, e a Mastercard conseguiu?

A resposta está na questão regulatória. Como uma instituição financeira licenciada, a Mastercard tem maior segurança jurídica do que uma exchange de criptomoedas.

Quem deve ficar preocupado?

O impacto mais direto será na Ripple. A Ripple tem uma história de quase dez anos em pagamentos transfronteiriços, mas sempre lhe faltou uma rede global de 150 milhões de comerciantes, como a Mastercard. Agora, com a sua própria capacidade de liquidação na blockchain, a narrativa da Ripple fica mais difícil — sua tecnologia pode ser mais avançada, mas a infraestrutura da Mastercard é mais robusta.

Os bancos intermediários também terão dificuldades. Se a Mastercard conseguir roteirizar pagamentos B2B de alto valor via blockchain, os bancos que dependem de taxas de remessas internacionais podem ver suas receitas despencar.

Por outro lado, há vozes diferentes na comunidade cripto. As stablecoins nasceram de um mundo descentralizado, mas agora o fluxo de transações está concentrado na rede permissionada da Mastercard e nos nós licenciados — o que não é muito diferente do sistema financeiro tradicional. O Banco da Inglaterra já está preocupado com outra questão: se as stablecoins se tornarem tão eficientes, os consumidores podem transferir seus depósitos bancários para contas de stablecoins, e os bancos comerciais, como ficam?

Resumo

No fundo, as stablecoins estão a evoluir de “produto cripto” para “infraestrutura financeira”. Como diz Jorn Lambert, diretor de produtos da Mastercard, a maioria das instituições financeiras e fintechs cedo ou tarde oferecerão serviços de moeda digital — e a Mastercard quer ser essa infraestrutura.

No front, os usuários podem pagar com cartão, enquanto nos bastidores, o que rola é USDC. Eles não percebem a blockchain, apenas sentem a rapidez e o custo mais baixo.

Essa é a verdadeira transformação na adoção de stablecoins: não é fazer todos usarem carteiras cripto, mas fazer com que todos usem stablecoins sem perceber.

Os 1,8 mil milhões de dólares que a Mastercard gastou não é por uma empresa, mas por uma nova geração de sistema de pagamentos, uma estação de cobrança de tarifas.

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