Charlie Munger: como a lenda dos investimentos lutou contra o tempo nos últimos anos

Alguns dias antes de falecer, Charlie Munger pediu aos seus entes queridos que saíssem do seu quarto no hospital perto de Montecito, para ouvir pela última vez a voz do seu fiel parceiro Warren Buffett. Os dois gigantes do mundo financeiro conversaram ao telefone, como faziam há sete décadas de colaboração, mas desta vez despediam-se um do outro. Segundo relatos da família, devido aos problemas auditivos de ambos, gritavam tão alto que eram ouvidos por toda a vizinhança, transformando a conversa confidencial num espetáculo digno da sua lendária parceria.

A vida de Charlie Munger na última década foi cheia de paradoxos. Um homem que podia permitir-se uma casa de luxo com vista para o Pacífico em Montecito escolheu uma casa antiga, sem ar condicionado, em Los Angeles. A razão era simples: lá estava mais perto das pessoas que o inspiravam e dos projetos que acendiam a sua imaginação, mesmo numa fase em que a maioria procura paz.

Quando a experiência contradiz a intuição: aposta no carvão

A jogada mais chocante de um investidor que evitou o setor do carvão durante 60 anos foi a sua operação em 2023. Segundo uma investigação especial do The Wall Street Journal, enquanto o mercado acreditava unanimemente no declínio da energia a carvão, Charlie Munger viu uma realidade diferente.

Ele fez a sua análise e concluiu: as crescentes necessidades globais de energia significam que o carvão continuará na mistura de fontes energéticas, os produtores permanecem lucrativos e as suas ações estão gravemente subvalorizadas pelo mercado. O seu enteado Hal Bortwick recorda: «Ele leu um artigo sobre a condenação da indústria do carvão e simplesmente disse: “Isto é uma completa tolice”».

Em maio daquele ano, Munger adquiriu uma posição significativa na Consol Energy, e depois acrescentou ações da Alpha Metallurgical Resources, produtora de carvão coke. Na altura da sua morte, esses papéis tinham duplicado de valor, com um lucro fictício superior a 50 milhões de dólares — uma demonstração de que, mesmo aos 99 anos, o pensamento correto pode superar o consenso do mercado.

Amizade intergeracional como investimento no futuro

Mas o portefólio mais incomum de Charlie Munger não eram ações, eram pessoas. Em 2005, o vizinho de 17 anos, Avi Mayer, bateu à sua porta à procura de orientação. O adolescente estava perdido, inseguro, sem saber para onde ia a sua vida. Em vez de dar lições de moral, Munger limitou-se a escutá-lo, observá-lo e dar-lhe conselhos discretos.

Quando Mayer e o amigo de infância Ruvén Gradon decidiram investir em imóveis, Charlie Munger, ao observar os seus primeiros passos, não os deixou na mão. Investiu na sua empresa Afton Properties e, desde 2017, começou a comprar edifícios de apartamentos no Sul da Califórnia junto com eles.

Ninguém pode dizer que Munger foi um investidor passivo. Participou em tudo — desde a escolha dos locais e avaliação dos edifícios até à cor da tinta nas fachadas. Decidiu pessoalmente gastar centenas de milhares de dólares em arborização, transformando complexos residenciais comuns em comunidades atraentes. Seguindo o seu conselho, a empresa contraiu empréstimos a longo prazo com taxas fixas, adotando uma estratégia de manutenção de ativos a longo prazo.

O resultado fala por si: o portefólio da Afton Properties cresceu para cerca de 3 mil milhões de dólares. Pou poucos dias após a morte de Munger, foi concluída uma aquisição de imóveis em frente ao Costco, prova de que a sua influência nos processos de negócio permaneceu determinante até ao fim.

Enfrentando a velhice de frente: humor como arma

Com a idade, vieram também as dificuldades. Uma cirurgia mal sucedida nos olhos, em 1978, deixou-o sem visão no olho esquerdo. Por volta de 2014, surgiram problemas graves no olho direito — o nervo óptico falhou, e os médicos alertaram para uma possível cegueira total. O amigo Charlie Lee Lu recorda que Munger encarou a ameaça com uma calma surpreendente, até disposto a aprender a ler em Braille.

Felizmente, a visão do olho direito melhorou com o tempo, mas a mobilidade foi inexoravelmente diminuindo. O golfe e outras atividades ficaram no passado, substituídas por uma bengala. Contudo, o seu espírito permaneceu indomável.

«Ah, se eu pudesse ser novamente um homem de 86 anos!» — brincava com os convidados, demonstrando um humor surpreendente. A sua longevidade atribuía-a ao Diet Coke e às boas relações. Quando a família tentava convencê-lo a seguir uma dieta saudável, ele sorria e recusava, deliciando-se com hot dogs do Costco, hambúrgueres do In-N-Out e frango frito coreano.

O maior medo de Munger não era físico — era o medo de solidão e inutilidade. Por isso, toda terça-feira, encontrava-se para o pequeno-almoço no Los Angeles Country Club com um círculo de empresários, onde partilhava a sua sabedoria de investimento e reflexões sobre a vida. «Na minha idade, ou faz novos amigos, ou fica sozinho», dizia aos que o rodeavam. Esses encontros tornaram-se a âncora dele no turbulento oceano do envelhecimento.

Lenda até ao último dia: filosofia da resistência

Embora nos últimos anos Charlie Munger tivesse participado menos ativamente na rotina diária da Berkshire Hathaway, a sua ligação a Buffett permaneceu sagrada. Telefonavam-se semanal ou quinzenalmente, mas a distância entre Los Angeles e Omaha, assim como os problemas auditivos, dificultavam a comunicação. Segundo a nora de Munger, Whitney Jackson, as conversas telefónicas tornavam-se num espetáculo divertido: «Gritavam um com o outro tão alto que as conversas, que deviam ser confidenciais, eram ouvidas a quilómetros de distância».

A história do último telefonema simboliza a essência da vida de Charlie Munger — mesmo perante o fim, pensava mais nas pessoas que valorizava do que em si próprio. Pediu à família que saísse do quarto, para garantir que a sua última conversa fosse com alguém que foi seu parceiro, colaborador e amigo durante sete décadas.

Charlie Munger viveu uma vida que desafia as nossas ideias de velhice, sucesso e sentido. Ele não apenas esperou pelo fim — criou, orientou, investiu e amou. Aos 99 anos, manteve-se fiel a si mesmo: curioso, corajoso e pronto para novos desafios. E talvez esse seja o seu maior legado: um exemplo de como viver a vida enquanto ela passa, independentemente do calendário.

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