Cada país endividado — Mas quem é realmente o credor?

Quando analisamos a economia global, surge um paradoxo desconcertante: quase todos os países do mundo estão profundamente endividados, mas, de alguma forma, o mundo continua a funcionar, o dinheiro continua a fluir e os mercados continuam a operar. Isso levanta uma questão antiga que tem confundido economistas e formuladores de políticas: se todos os países estão em dívida, então quem exatamente está emprestando todo esse dinheiro? A resposta, segundo o ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis, desafia a nossa compreensão fundamental de como as economias modernas funcionam. Numa análise reveladora do sistema de dívida global, Varoufakis argumenta que o credor não é uma força externa, mas sim um reflexo de nós mesmos — um ciclo fechado onde cidadãos, instituições e nações emprestam uns aos outros, criando uma teia intrincada de obrigações que tanto sustenta a prosperidade quanto abriga uma fragilidade sem precedentes.

A Armadilha Universal da Dívida: Um Fenómeno Global

A escala da dívida global é assombrosa. Em finais de 2025, a dívida federal dos EUA atingia os 38 trilhões de dólares — um valor tão enorme que gastar 1 milhão de dólares por dia exigiria mais de 100.000 anos para esgotá-lo. Ainda assim, os EUA não são únicos. O Japão possui uma dívida pública equivalente a 230% do seu produto interno bruto, o Reino Unido, França e Alemanha operam com défices substanciais, e globalmente, a dívida pública soma cerca de 111 trilhões de dólares, representando 95% do PIB mundial. Num único ano, a dívida global cresceu 8 trilhões de dólares.

Esta situação aparentemente catastrófica revela uma verdade desconfortável: a visão tradicional da dívida — onde um devedor desesperado implora por crédito a credores relutantes — simplesmente não se aplica ao nível nacional. Em vez disso, opera-se um mecanismo fundamentalmente diferente. Para a maioria das nações ricas, a dívida do governo não é imposta por credores relutantes; ela representa um ativo que os credores procuram ativamente manter. Essa mudança de perspetiva transforma a nossa compreensão de quem, exatamente, cada país deve quando todos estão endividados.

Quem Detém a Dívida? Todos Nós

Para entender o paradoxo do credor, é preciso rastrear onde realmente residem os títulos de dívida pública. Os EUA oferecem o exemplo mais claro. O maior detentor da dívida do governo americano é a própria Reserva Federal — o banco central do país — que possui cerca de 6,7 trilhões de dólares em títulos do Tesouro. Isso cria uma situação peculiar: o governo dos EUA tecnicamente deve dinheiro ao seu próprio banco central.

Para além da Fed, existem aproximadamente 7 trilhões de dólares em que os economistas chamam de “posses intra-governamentais” — fundos que o governo tomou emprestado de si próprio. O Fundo de Segurança Social detém 2,8 trilhões em títulos do Tesouro, fundos de aposentadoria militar têm 1,6 trilhões, e o Medicare possui quantias adicionais consideráveis. O governo, essencialmente, empresta do seu próprio bolso esquerdo para financiar o bolso direito, criando um ciclo financeiro fechado. No total, o governo dos EUA deve a si próprio cerca de 13 trilhões de dólares — mais de um terço de toda a sua dívida.

Investidores domésticos privados constituem a próxima camada crítica. Os fundos mútuos americanos detêm aproximadamente 3,7 trilhões de dólares em títulos do Tesouro, os governos estaduais e locais possuem 1,7 trilhões, enquanto bancos, companhias de seguros e fundos de pensão, coletivamente, detêm cerca de 24 trilhões. Aqui reside a ideia essencial: esses fundos de pensão e fundos mútuos são capitalizados por trabalhadores americanos que poupam para a reforma da aposentadoria. Uma professora que contribui mensalmente para o seu fundo de pensões, que investe essas contribuições em títulos do governo, torna-se credora do seu próprio governo. Quando os cidadãos se preocupam com a dívida nacional, sem saber, seguram títulos do governo através das suas contas de reforma — eles são, ao mesmo tempo, mutuantes (beneficiando-se dos serviços públicos) e credores (fornecendo o capital através das suas poupanças).

Investidores estrangeiros detêm cerca de 8,5 trilhões de dólares em títulos do Tesouro, aproximadamente 30% da dívida pública. O Japão possui 1,13 trilhão, enquanto o Reino Unido detém 723 bilhões. Contudo, o investimento estrangeiro em dívida pública serve a um propósito distinto. Quando o Japão exporta carros e eletrônicos para os EUA, as empresas japonesas acumulam dólares. Converter esses dólares diretamente em ienes de uma só vez faria a moeda apreciar-se fortemente, tornando as exportações japonesas menos competitivas. Em vez disso, o Banco do Japão compra esses dólares e investe-os em títulos do Tesouro dos EUA — um mecanismo de reciclagem dos superávits comerciais, ao mesmo tempo que mantém a estabilidade cambial. A circulação global da dívida, neste sentido, reflete a circulação de bens e capitais.

Essa realidade reformula fundamentalmente a relação entre devedor e credor. Em países ricos, cada país endividado é paradoxalmente cada país à procura dos ativos mais seguros disponíveis. Os títulos do Tesouro dos EUA são reconhecidos mundialmente como o ativo financeiro mais seguro do mundo. Durante crises — guerras, pandemias, colapsos financeiros — o capital converge para os títulos do governo numa dinâmica que os economistas chamam de “fuga para a segurança”. Essa procura não reflete desespero por parte dos mutuantes, mas sim uma preferência deliberada por estabilidade em tempos de incerteza.

O Mecanismo de Quantitative Easing e o Crescimento da Desigualdade

Para compreender completamente como funcionam os sistemas de dívida modernos, é preciso entender o Quantitative Easing (QE) — uma ferramenta de política monetária que os bancos centrais usaram de forma agressiva durante crises. O QE consiste na criação de dinheiro eletronicamente, digitando números em contas, e na compra de títulos do governo com esse dinheiro recém-criado. O Federal Reserve criou cerca de 3,5 trilhões de dólares através deste mecanismo durante a crise financeira de 2008-2009, e gerou somas adicionais massivas durante a pandemia de COVID-19.

Em teoria, o QE tem uma função estabilizadora. Quando crises económicas interrompem gastos e investimentos, os bancos centrais injetam liquidez para reanimar o crédito e o consumo. Mas a realidade divergiu bastante da teoria. Após a crise de 2008, o QE conseguiu evitar o colapso sistémico, mas os preços dos ativos dispararam — ações, títulos e imóveis valorizaram-se dramaticamente. Isso aconteceu porque o dinheiro criado foi direcionado para bancos e instituições financeiras, que nem sempre emprestaram a pequenas empresas ou compradores de casas, mas investiram em ativos financeiros. Pesquisas do Banco de Inglaterra revelam que o QE elevou os preços das ações e dos títulos em cerca de 20%, mas os ganhos foram profundamente desiguais. Os 5% mais ricos das famílias do Reino Unido viram a sua riqueza média aumentar em cerca de 128 mil libras, enquanto as famílias sem ativos financeiros beneficiaram quase nada.

Essa dinâmica de desigualdade estende-se ao peso dos juros a pagar globalmente. O governo dos EUA projeta gastar 1 trilhão de dólares por ano em juros em 2025 — mais do que o total de gastos militares e uma fatia crescente do orçamento federal. Os custos de juros quase duplicaram em três anos, passando de 497 bilhões de dólares em 2022 para 909 bilhões em 2024. O Congressional Budget Office estima que, até 2034, esses encargos de juros consumirão cerca de 4% do PIB dos EUA e 22% da receita federal total, ou seja, mais de um dólar de cada cinco arrecadados em impostos será destinado ao pagamento da dívida, em vez de financiar escolas, infraestruturas, saúde ou defesa.

O peso recai desproporcionalmente sobre as nações em desenvolvimento. Entre os países ricos da OCDE, os pagamentos de juros já representam em média 3,3% do PIB — mais do que os gastos com defesa. Globalmente, mais de 3,4 bilhões de pessoas vivem em países onde o serviço da dívida excede os gastos com educação ou saúde. Países pobres pagaram somas recorde para honrar dívidas externas, com custos de juros atingindo 34,6 bilhões de dólares em 2023 — quatro vezes mais do que uma década antes. Para alguns países, os juros representam 38% das receitas de exportação, recursos que poderiam ter modernizado forças armadas, construído infraestruturas ou educado populações, mas que, em vez disso, foram transferidos para credores estrangeiros. Sessenta e um países em desenvolvimento destinam 10% ou mais das receitas governamentais apenas ao pagamento de juros, criando uma armadilha da dívida da qual parece impossível escapar.

Quatro Pilares que Sustentam um Sistema Instável

Vários fatores sustentam a atual arquitetura da dívida global, apesar da sua precariedade. Primeiro, a demografia e os padrões de poupança nas nações ricas criam uma procura constante por ativos seguros. Populações envelhecidas precisam de depósitos seguros para a reforma da aposentadoria; os títulos do governo satisfazem essa necessidade. Enquanto as pessoas envelhecerem e precisarem de segurança financeira, a procura por dívida pública persistirá.

Segundo, a estrutura do comércio global perpetua a acumulação de dívida. Grandes desequilíbrios comerciais caracterizam a economia moderna — alguns países exportam muito mais do que importam, acumulando direitos financeiros sobre países deficitários na forma de títulos. Esses desequilíbrios estruturais, se persistirem, manterão os níveis de dívida.

Terceiro, os bancos centrais incorporaram os títulos do governo na própria política monetária. Compram títulos para injetar liquidez e vendem títulos para retirar dinheiro de circulação. A dívida pública funciona como o mecanismo através do qual a política monetária opera; sem uma quantidade substancial de títulos, os bancos centrais não podem gerir eficazmente a oferta de dinheiro. Quarto, em economias saturadas de risco, a segurança tem um prémio. Os títulos do governo de países estáveis oferecem a estabilidade que seguradoras, fundos de pensão e bancos desesperadamente procuram. Se os governos eliminassem toda a dívida, surgiria uma escassez catastrófica de ativos seguros — os credores correriam atrás de alternativas num mercado de ativos que deixaria de existir.

Paradoxalmente, o mundo precisa de dívida pública. Mas essa constatação oculta uma realidade mais profunda: o sistema permanece estável exatamente até ao momento em que falha catastróficamente.

Quando a Confiança Desaba: A Fragilidade por Trás da Estabilidade

Historicamente, as crises de dívida não surgem de forma gradual, mas de repente, desencadeadas pelo colapso da confiança. A Grécia experimentou isso em 2010, quando os investidores deixaram de comprar títulos gregos e exigiram taxas de juro punitivas que o país não conseguiu sustentar. Padrões semelhantes ocorreram durante a crise financeira asiática de 1997 e nas crises latino-americanas dos anos 80. A sequência mantém-se: anos de aparente normalidade precedem pânicos súbitos, quando os credores perdem a fé na capacidade ou vontade dos devedores de pagar.

A sabedoria convencional insiste que grandes economias como os EUA ou o Japão não podem passar por crises assim, porque controlam as suas próprias moedas, possuem mercados financeiros profundos e são “demasiado grandes para falir” a nível global. Mas essa visão tem-se mostrado repetidamente errada. Em 2007, os especialistas afirmaram que os preços das casas não poderiam cair; e caíram. Em 2010, garantiram que o euro era inquebrável; quase se desfez. Em 2019, ninguém previu que uma pandemia global congelaria a economia mundial por dois anos.

Os riscos acumulam-se simultaneamente. A dívida global atinge picos de paz. As taxas de juro subiram abruptamente após anos próximas de zero, tornando o serviço da dívida muito mais caro. A polarização política intensifica-se em vários países, dificultando a formulação de políticas fiscais coerentes. A mudança climática exige investimentos massivos exatamente quando os níveis de dívida atingem máximos históricos. Uma população envelhecida gera menos trabalhadores para sustentar os aposentados, pressionando os orçamentos públicos. E, mais importante, todo o sistema depende da confiança em algumas premissas: que os governos honrarão os compromissos de pagamento, que o dinheiro manterá o valor, e que a inflação permanecerá controlada. Se essa confiança evaporar, toda a arquitetura desmorona.

A Pergunta Espelho: O que Acontece Quando Todos os Países Estão Endividados?

Voltando ao paradoxo inicial — quando todos os países estão endividados, quem é o credor? — a resposta cristaliza: somos nós. Através dos fundos de pensões, dos bancos e seguradoras, das poupanças pessoais, dos bancos centrais, e do dinheiro reciclado do comércio internacional em títulos do governo, emprestamos coletivamente a nós mesmos. A dívida global representa a teia de reivindicações interligadas que uma parte da economia mundial mantém contra outra.

Este sistema gerou benefícios extraordinários, financiando infraestruturas, investigação, educação e saúde; permite que os governos respondam a crises sem restrições imediatas de receita fiscal; cria ativos financeiros que sustentam a segurança na reforma da aposentadoria e proporcionam estabilidade. Mas o sistema é, ao mesmo tempo, frágil — cada vez mais vulnerável à medida que os níveis de dívida se aproximam de alturas sem precedentes. Nunca, em tempos de paz, os governos tomaram empréstimos tão extensamente, nem os encargos de juros consumiram tamanha fatia do orçamento.

A questão fundamental não é se este sistema pode perpetuar-se indefinidamente — porque não pode, já que nada na história dura para sempre. Antes, a questão crucial é: como ocorrerá o ajustamento? Haverá uma reforma gradual, com os governos controlando lentamente os défices enquanto o crescimento económico supera a acumulação de dívida? Ou uma crise surgirá de repente, forçando ajustes simultâneos e dolorosos?

Ninguém consegue prever o futuro com certeza. Mas, à medida que o sistema de dívida global amadurece, o caminho estreita-se e a margem de erro diminui. Contradições estruturais — incluindo a concentração desproporcional de benefícios entre os ricos, enquanto os países pobres perdem recursos para pagar dívidas externas — não podem sustentar-se para sempre. São necessárias escolhas sobre que ajustes ocorrerão, quando e se serão geridos com sabedoria ou se irão descontrolar-se numa espiral caótica.

O enigma de “quem é o credor quando todos os países estão endividados” funciona, no fundo, como um espelho que reflete uma verdade mais inquietante: ninguém, nem individual nem institucionalmente, controla verdadeiramente este sistema complexo. Ele opera segundo a sua própria lógica e momentum, construído a partir de decisões humanas, mas além do controlo humano. Criámos algo simultaneamente poderoso e frágil, próspero e instável — e somos todos passageiros tentando navegar na sua trajetória.

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