Quando a volatilidade do preço do Bitcoin se liga aos movimentos celestiais, um jogo psicológico de incerteza está a desenrolar-se no mundo das criptomoedas.
De jogos sociais a guias de negociação
Uma aplicação explodiu em dezembro — chamada “Vida K-line”. Insere-se o Bazi para gerar um mapa de sorte de vida, usando velas vermelhas e verdes para traçar a trajetória do destino de 1 a 100 anos. Em três dias, mais de 300 mil chamadas à API, e a primeira publicação teve mais de 3,3 milhões de visualizações.
Mais intrigante ainda, apareceu uma token fake com o mesmo nome em 24 horas.
Mas isto não é só entretenimento. Reflete um fenômeno social profundo: num mercado sem respostas certas, os traders estão a usar a metafísica para construir consenso.
Por que a metafísica se torna um refúgio psicológico para os traders
O mercado de criptomoedas é um viveiro de ansiedade. Negociações 24/7, sem mecanismos de interrupção, com picos e quedas violentas a acontecerem num instante. Uma publicação de um influenciador pode evaporar dezenas de bilhões em valor de mercado, e fundadores de projetos de alta qualidade podem desaparecer numa noite.
O economista Frank Knight distinguiu dois conceitos: o “risco” quantificável e a “incerteza” não quantificável. Os humanos têm um medo inato do desconhecido; quando o risco não pode ser quantificado, criam uma falsa certeza para aliviar a ansiedade.
A metafísica é exatamente esse veículo de falsa certeza.
Um astrólogo de criptomoedas com 51 mil seguidores usa o “Mapa Natal” do Bitcoin (criado em 3 de janeiro de 2009, hora do bloco gênese) para prever ciclos planetários: o sinal de Saturno corresponde ao mercado em baixa, Júpiter ao topo do mercado em alta. Afirmam ter previsto com sucesso o pico do mercado em dezembro de 2017, o mercado em baixa de 2022 e o pico do ciclo do Bitcoin em 2024.
Essa forma de vincular datas específicas a eventos celestiais oferece aos traders confusos um “sinal de espera” claro — mesmo que venha do espaço. “Mercúrio retrógrado não abre posições, lua cheia causa quedas, o mapa mostra que o Bitcoin terá alta no próximo ano”, não é preciso análise técnica complexa, basta acreditar que está predestinado.
Um estudo da Universidade de Michigan de 2006 descobriu que os retornos do mercado de ações de 48 países durante a lua cheia foram 6,6% inferiores aos da lua nova. Não é que a lua realmente influencie o mercado, mas que a superstição coletiva influencia o comportamento dos traders. Se muitas pessoas acreditam que “lua cheia causa queda”, elas vendem antecipadamente, e a queda realmente acontece.
Em mercado em baixa, “análise fundamental” e “investimento em valor” tornam-se piadas, enquanto a metafísica parece mais confiável. Os traders precisam de metafísica, não porque seja precisa, mas porque oferece uma explicação — mesmo que falsa, é mais fácil de aceitar do que a incerteza sem fim.
Por que a metafísica parece sempre eficaz
A longevidade da metafísica vem de um viés cognitivo do cérebro.
Viés de confirmação é o mecanismo central: quem acredita que “lua cheia causa queda” lembra-se de todos os casos de quedas após lua cheia, ignorando dias de alta ou de estabilidade. “Vida K-line” mostra que, neste ano, o mercado em alta foi atribuído à “confirmação do mapa”, enquanto as quedas foram interpretadas como “correções de curto prazo que não afetam a tendência geral”.
As redes sociais amplificam esse viés. Um post dizendo “Segui o tarot e comprei ETH, ganhei 20% em três dias” será amplamente compartilhado, mas quem perdeu dinheiro não posta. Assim, o fluxo de informações fica inundado por casos de sucesso, enquanto os fracassos são filtrados.
Mais perigoso ainda é o ambiguidade da metafísica — ela nunca pode ser falsificada. Um mestre diz que não se negocia durante Mercúrio retrógrado, se perder, foi por não ter escutado o conselho; se ganhar, foi por uma configuração especial do mapa. O tarot indica “grande volatilidade recente”, e tanto altas quanto baixas são consideradas confirmações.
Essa característica de tudo parecer válido, faz com que a metafísica seja invencível. Como certos tabus de pedras preciosas, quanto mais ambígua a regra, mais fácil de atribuir diferentes interpretações.
Por isso, os traders não são supersticiosos, mas usam o cérebro de forma mais econômica: lembram-se do que é útil, ignoram o que não é, substituem análises complexas por explicações simples. A metafísica não é popular por sua precisão, mas porque sempre parece precisa.
O verdadeiro valor da metafísica: um laço social
A razão fundamental do sucesso da metafísica no mundo das criptomoedas é que ela se tornou uma moeda social acessível a todos.
Discutir análise técnica gera divergências, mas discutir metafísica não tem certo ou errado, só ressonância. “A sua Vida K-line é precisa?” é um tema amplamente debatido, não por acreditar, mas porque qualquer um pode participar, sem precisar de conhecimento técnico.
Quando alguém no grupo diz “Hoje Mercúrio retrógrado, não abro posições”, ninguém questiona “isso não faz sentido”, ao contrário, alguém responde “Eu também, vamos evitar essa onda”. No fundo, é uma confirmação de que a ansiedade de todos é razoável.
Pesquisa da Pew de 2025 mostra que 28% dos adultos nos EUA consultam astrologia, tarot ou adivinhação pelo menos uma vez por ano. A metafísica deixou de ser uma cultura marginal e virou uma necessidade psicológica comum. O mundo das criptomoedas apenas transformou essa necessidade de “uso privado” para “exibição pública”.
Conclusão: não estamos prevendo o futuro
O sucesso de “Vida K-line” revela uma verdade que todo trader conhece, mas não admite: nossa sensação de controle sobre o mercado pode ser tão frágil quanto o controle sobre o destino.
Ao ver seu “Mapa de Vida” indicando que este ano será em baixa, o trader não vai realmente liquidar tudo. Mas, ao perder, sente-se menos culpado; ao perder uma oportunidade, consola-se: “Não é minha culpa, o ciclo do mapa que está errado”.
Num mercado 24/7, o ano todo, cheio de incertezas, o que realmente queremos prever não é o movimento da vida, mas uma sustentação psicológica que nos mantenha na mesa de negociação. A metafísica não oferece respostas, oferece companhia.
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O enigma das velas durante a retrogradação de Saturno: por que os traders de criptomoedas estão todos jogando com a numerologia?
Quando a volatilidade do preço do Bitcoin se liga aos movimentos celestiais, um jogo psicológico de incerteza está a desenrolar-se no mundo das criptomoedas.
De jogos sociais a guias de negociação
Uma aplicação explodiu em dezembro — chamada “Vida K-line”. Insere-se o Bazi para gerar um mapa de sorte de vida, usando velas vermelhas e verdes para traçar a trajetória do destino de 1 a 100 anos. Em três dias, mais de 300 mil chamadas à API, e a primeira publicação teve mais de 3,3 milhões de visualizações.
Mais intrigante ainda, apareceu uma token fake com o mesmo nome em 24 horas.
Mas isto não é só entretenimento. Reflete um fenômeno social profundo: num mercado sem respostas certas, os traders estão a usar a metafísica para construir consenso.
Por que a metafísica se torna um refúgio psicológico para os traders
O mercado de criptomoedas é um viveiro de ansiedade. Negociações 24/7, sem mecanismos de interrupção, com picos e quedas violentas a acontecerem num instante. Uma publicação de um influenciador pode evaporar dezenas de bilhões em valor de mercado, e fundadores de projetos de alta qualidade podem desaparecer numa noite.
O economista Frank Knight distinguiu dois conceitos: o “risco” quantificável e a “incerteza” não quantificável. Os humanos têm um medo inato do desconhecido; quando o risco não pode ser quantificado, criam uma falsa certeza para aliviar a ansiedade.
A metafísica é exatamente esse veículo de falsa certeza.
Um astrólogo de criptomoedas com 51 mil seguidores usa o “Mapa Natal” do Bitcoin (criado em 3 de janeiro de 2009, hora do bloco gênese) para prever ciclos planetários: o sinal de Saturno corresponde ao mercado em baixa, Júpiter ao topo do mercado em alta. Afirmam ter previsto com sucesso o pico do mercado em dezembro de 2017, o mercado em baixa de 2022 e o pico do ciclo do Bitcoin em 2024.
Essa forma de vincular datas específicas a eventos celestiais oferece aos traders confusos um “sinal de espera” claro — mesmo que venha do espaço. “Mercúrio retrógrado não abre posições, lua cheia causa quedas, o mapa mostra que o Bitcoin terá alta no próximo ano”, não é preciso análise técnica complexa, basta acreditar que está predestinado.
Um estudo da Universidade de Michigan de 2006 descobriu que os retornos do mercado de ações de 48 países durante a lua cheia foram 6,6% inferiores aos da lua nova. Não é que a lua realmente influencie o mercado, mas que a superstição coletiva influencia o comportamento dos traders. Se muitas pessoas acreditam que “lua cheia causa queda”, elas vendem antecipadamente, e a queda realmente acontece.
Em mercado em baixa, “análise fundamental” e “investimento em valor” tornam-se piadas, enquanto a metafísica parece mais confiável. Os traders precisam de metafísica, não porque seja precisa, mas porque oferece uma explicação — mesmo que falsa, é mais fácil de aceitar do que a incerteza sem fim.
Por que a metafísica parece sempre eficaz
A longevidade da metafísica vem de um viés cognitivo do cérebro.
Viés de confirmação é o mecanismo central: quem acredita que “lua cheia causa queda” lembra-se de todos os casos de quedas após lua cheia, ignorando dias de alta ou de estabilidade. “Vida K-line” mostra que, neste ano, o mercado em alta foi atribuído à “confirmação do mapa”, enquanto as quedas foram interpretadas como “correções de curto prazo que não afetam a tendência geral”.
As redes sociais amplificam esse viés. Um post dizendo “Segui o tarot e comprei ETH, ganhei 20% em três dias” será amplamente compartilhado, mas quem perdeu dinheiro não posta. Assim, o fluxo de informações fica inundado por casos de sucesso, enquanto os fracassos são filtrados.
Mais perigoso ainda é o ambiguidade da metafísica — ela nunca pode ser falsificada. Um mestre diz que não se negocia durante Mercúrio retrógrado, se perder, foi por não ter escutado o conselho; se ganhar, foi por uma configuração especial do mapa. O tarot indica “grande volatilidade recente”, e tanto altas quanto baixas são consideradas confirmações.
Essa característica de tudo parecer válido, faz com que a metafísica seja invencível. Como certos tabus de pedras preciosas, quanto mais ambígua a regra, mais fácil de atribuir diferentes interpretações.
Por isso, os traders não são supersticiosos, mas usam o cérebro de forma mais econômica: lembram-se do que é útil, ignoram o que não é, substituem análises complexas por explicações simples. A metafísica não é popular por sua precisão, mas porque sempre parece precisa.
O verdadeiro valor da metafísica: um laço social
A razão fundamental do sucesso da metafísica no mundo das criptomoedas é que ela se tornou uma moeda social acessível a todos.
Discutir análise técnica gera divergências, mas discutir metafísica não tem certo ou errado, só ressonância. “A sua Vida K-line é precisa?” é um tema amplamente debatido, não por acreditar, mas porque qualquer um pode participar, sem precisar de conhecimento técnico.
Quando alguém no grupo diz “Hoje Mercúrio retrógrado, não abro posições”, ninguém questiona “isso não faz sentido”, ao contrário, alguém responde “Eu também, vamos evitar essa onda”. No fundo, é uma confirmação de que a ansiedade de todos é razoável.
Pesquisa da Pew de 2025 mostra que 28% dos adultos nos EUA consultam astrologia, tarot ou adivinhação pelo menos uma vez por ano. A metafísica deixou de ser uma cultura marginal e virou uma necessidade psicológica comum. O mundo das criptomoedas apenas transformou essa necessidade de “uso privado” para “exibição pública”.
Conclusão: não estamos prevendo o futuro
O sucesso de “Vida K-line” revela uma verdade que todo trader conhece, mas não admite: nossa sensação de controle sobre o mercado pode ser tão frágil quanto o controle sobre o destino.
Ao ver seu “Mapa de Vida” indicando que este ano será em baixa, o trader não vai realmente liquidar tudo. Mas, ao perder, sente-se menos culpado; ao perder uma oportunidade, consola-se: “Não é minha culpa, o ciclo do mapa que está errado”.
Num mercado 24/7, o ano todo, cheio de incertezas, o que realmente queremos prever não é o movimento da vida, mas uma sustentação psicológica que nos mantenha na mesa de negociação. A metafísica não oferece respostas, oferece companhia.