O início de dezembro deste ano trouxe uma descoberta surpreendente – uma movimentação no Twitter em torno de uma aplicação que gera o “Gráfico K-linha da vida". Uma ferramenta de adivinhação que, aparentemente, servia apenas para diversão, atraiu mais de 300 mil utilizadores em três dias. A primeira publicação sobre a aplicação acumulou 3,3 milhões de visualizações. Ainda mais revelador – em 24 horas foi criado um token com o mesmo nome. O fenómeno parecia absurdo para observadores externos, mas para a comunidade de criptomoedas era uma extensão natural de algo que há anos se escondia sob a superfície.
Esoterismo: da misteriosa Wall Street à arena pública
A história do interesse secreto pela mística entre os profissionais de finanças remonta há muito tempo. Em Wall Street, figuras lendárias como W.D. Gann combinavam astrologia com análise de tendências de mercado, prevendo mudanças nos mercados de ações. George Soros, em seu trabalho, admitiu confiar no instinto – especificamente na dor nas costas como sinal de risco de mercado.
No entanto, entre o século XX e hoje, havia uma diferença fundamental: os especuladores nunca admitiam publicamente que se guiavam pelo esoterismo. Isso era considerado difamação da reputação profissional. Era possível acreditar individualmente em feng shui ou consultar videntes, mas admitir isso entre colegas de profissão significava perder credibilidade.
O mundo das criptomoedas rompeu com essa convenção. Aqui, onde a própria natureza do negócio tem algo de místico, pessoas que fazem trading abertamente discutem horóscopos de nascimento do Bitcoin ou o impacto de ciclos planetários. Um astrólogo com 51 mil seguidores publica regularmente previsões baseadas no “horóscopo de nascimento" da criptomoeda (do bloco Genesis de 3 de janeiro de 2009). Sua análise combina posições planetárias – Saturno em retrogradação está associado a quedas, Júpiter – a picos de alta.
Discussões sobre a retrogradação de Mercúrio em 2024 ou o impacto das fases da lua atraem milhares de interações. As pessoas não têm vergonha de compartilhar seus “gráficos K-linha da vida" ou discutir quando devem ou não abrir posições. O esoterismo saiu das sombras e entrou na corrente principal das redes sociais.
Fonte do medo: incerteza ao invés de risco
Por que um trader precisa de um horóscopo? A resposta está na diferença fundamental entre risco e incerteza, proposta pelo economista Frank Knight em 1921. Risco é uma probabilidade mensurável – lançar um dado tem chances conhecidas. Incerteza, por outro lado, é o desconhecido que não pode ser medido – no mercado de criptomoedas, ninguém sabe quando ocorrerá uma crise.
O mercado de criptomoedas funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, o ano todo. Um tweet pode fazer desaparecer bilhões de dólares em capitalização. Projetos desaparecem de um dia para o outro. Os traders vivem em um estado constante de incerteza, e aí está o problema – a incerteza paralisa mais do que o risco conhecido.
Quando você não consegue medir a ameaça, seu cérebro instintivamente busca uma “falsa segurança". O esoterismo é perfeito para esse propósito. Em vez de analisar dados macroeconômicos complexos ou ler whitepapers, você pode abrir um horóscopo diário e receber uma orientação clara: hoje não negocie, por causa da retrogradação de Mercúrio.
Estudos da Universidade de Michigan de 2006 mostraram que os retornos durante a lua cheia eram 6,6% menores do que durante a lua nova em 48 mercados de ações. Não porque a lua realmente influencia os preços – mas porque a crença coletiva altera o comportamento dos traders. Quando um número suficiente de pessoas vende durante a lua cheia, de fato ocorrem quedas. No mundo das criptomoedas, esse medo coletivo é reforçado – especialmente durante as quedas, quando a análise fundamental tradicional perde relevância.
Erros cognitivos que reforçam a ilusão
O esoterismo persiste não porque funcione, mas porque nosso cérebro sempre encontra uma maneira de se convencer dele. O efeito de confirmação – um erro cognitivo clássico – é o mecanismo principal.
Se você acredita que a lua cheia significa crise, lembrará de cada queda após a lua cheia e esquecerá os dias de alta. Quando seu “gráfico K-linha da vida" prevê alta, cada pequena valorização será atribuída à realização da previsão, e as quedas serão vistas como “ruído de mercado sem impacto na tendência".
Twitter e outras plataformas sociais amplificam esse efeito. Uma publicação: “Fiz uma operação longa na ETH com base no tarô, em três dias ganhei 20%" – recebe milhares de compartilhamentos. Traders que perderam dinheiro seguindo o tarô não publicam suas derrotas. A comunidade só vê os casos de “previsões que se realizaram" do esoterismo.
Quando o BTC despenca abruptamente, o trader busca uma explicação. Análise técnica fala de quebras, economistas falam de taxas de juros – tudo muito complicado. O esoterismo oferece uma resposta simples: “Saturno em retrogradação, o mercado entra em baixa". Essa explicação se espalha rapidamente, pois exige confiança, não conhecimento.
O mais importante – o esoterismo é irrefutável. Se você perde dinheiro mesmo com um horóscopo favorável ao trading, o mestre responderá: seu horóscopo pessoal é único e requer uma abordagem diferente. Se você ganha – claro, a previsão se confirmou. O tarô mostra “grandes oscilações" – independentemente da direção, pode ser interpretado como uma previsão.
Comunidade ao invés de respostas
A razão final para a popularidade do esoterismo no mundo das criptomoedas é sua função social. Discussões sobre análise técnica terminam em disputas. Sobre esoterismo? Nunca – porque não há certo ou errado, só a experiência compartilhada importa.
“Seu gráfico K-linha da vida é preciso?" – uma pergunta que todos gostam de discutir. Não exige conhecimento técnico, não gera conflitos. Quando você escreve no chat: “Hoje retrogradação de Mercúrio, esperando um momento melhor", alguém responde: “Eu também, vamos passar por essa onda juntos".
Pesquisas do Pew Research de 2025 mostram que 28% dos adultos nos EUA usam astrologia ou tarô pelo menos uma vez ao ano. O esoterismo deixou de ser um fenômeno marginal – é uma necessidade psicológica comum. O mercado de criptomoedas simplesmente elevou isso de “uso privado" para “arena pública".
Gráfico K-linha da vida: consolo em um mercado turbulento
A popularidade da aplicação de dezembro não decorre de sua precisão. Ela expressa elegantemente algo que todo trader sente, mas não admite – nosso controle sobre o mercado é tão ilusório quanto o controle sobre o próprio destino.
Quando você vê uma crise no seu “gráfico K-linha da vida", não vende tudo. Mas, quando realmente perde, sua mente sente alívio: não foi minha culpa, foi um ciclo ruim no horóscopo. Quando perde as altas, o consolo é pensar que isso estava escrito nas estrelas.
Neste mercado, que nunca fecha, cheio de incertezas – não queremos prever o futuro. Queremos apoio psicológico que nos permita permanecer na mesa de negociação.
O esoterismo no mundo das criptomoedas não é um erro – é uma tentativa do ser humano de, em um mundo de incerteza total, encontrar pelo menos uma ilusão de controle.
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Quando a retrogradação de Mercúrio em 2024 assusta os traders: como a esoteria conquistou o mercado de criptomoedas
O início de dezembro deste ano trouxe uma descoberta surpreendente – uma movimentação no Twitter em torno de uma aplicação que gera o “Gráfico K-linha da vida". Uma ferramenta de adivinhação que, aparentemente, servia apenas para diversão, atraiu mais de 300 mil utilizadores em três dias. A primeira publicação sobre a aplicação acumulou 3,3 milhões de visualizações. Ainda mais revelador – em 24 horas foi criado um token com o mesmo nome. O fenómeno parecia absurdo para observadores externos, mas para a comunidade de criptomoedas era uma extensão natural de algo que há anos se escondia sob a superfície.
Esoterismo: da misteriosa Wall Street à arena pública
A história do interesse secreto pela mística entre os profissionais de finanças remonta há muito tempo. Em Wall Street, figuras lendárias como W.D. Gann combinavam astrologia com análise de tendências de mercado, prevendo mudanças nos mercados de ações. George Soros, em seu trabalho, admitiu confiar no instinto – especificamente na dor nas costas como sinal de risco de mercado.
No entanto, entre o século XX e hoje, havia uma diferença fundamental: os especuladores nunca admitiam publicamente que se guiavam pelo esoterismo. Isso era considerado difamação da reputação profissional. Era possível acreditar individualmente em feng shui ou consultar videntes, mas admitir isso entre colegas de profissão significava perder credibilidade.
O mundo das criptomoedas rompeu com essa convenção. Aqui, onde a própria natureza do negócio tem algo de místico, pessoas que fazem trading abertamente discutem horóscopos de nascimento do Bitcoin ou o impacto de ciclos planetários. Um astrólogo com 51 mil seguidores publica regularmente previsões baseadas no “horóscopo de nascimento" da criptomoeda (do bloco Genesis de 3 de janeiro de 2009). Sua análise combina posições planetárias – Saturno em retrogradação está associado a quedas, Júpiter – a picos de alta.
Discussões sobre a retrogradação de Mercúrio em 2024 ou o impacto das fases da lua atraem milhares de interações. As pessoas não têm vergonha de compartilhar seus “gráficos K-linha da vida" ou discutir quando devem ou não abrir posições. O esoterismo saiu das sombras e entrou na corrente principal das redes sociais.
Fonte do medo: incerteza ao invés de risco
Por que um trader precisa de um horóscopo? A resposta está na diferença fundamental entre risco e incerteza, proposta pelo economista Frank Knight em 1921. Risco é uma probabilidade mensurável – lançar um dado tem chances conhecidas. Incerteza, por outro lado, é o desconhecido que não pode ser medido – no mercado de criptomoedas, ninguém sabe quando ocorrerá uma crise.
O mercado de criptomoedas funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, o ano todo. Um tweet pode fazer desaparecer bilhões de dólares em capitalização. Projetos desaparecem de um dia para o outro. Os traders vivem em um estado constante de incerteza, e aí está o problema – a incerteza paralisa mais do que o risco conhecido.
Quando você não consegue medir a ameaça, seu cérebro instintivamente busca uma “falsa segurança". O esoterismo é perfeito para esse propósito. Em vez de analisar dados macroeconômicos complexos ou ler whitepapers, você pode abrir um horóscopo diário e receber uma orientação clara: hoje não negocie, por causa da retrogradação de Mercúrio.
Estudos da Universidade de Michigan de 2006 mostraram que os retornos durante a lua cheia eram 6,6% menores do que durante a lua nova em 48 mercados de ações. Não porque a lua realmente influencia os preços – mas porque a crença coletiva altera o comportamento dos traders. Quando um número suficiente de pessoas vende durante a lua cheia, de fato ocorrem quedas. No mundo das criptomoedas, esse medo coletivo é reforçado – especialmente durante as quedas, quando a análise fundamental tradicional perde relevância.
Erros cognitivos que reforçam a ilusão
O esoterismo persiste não porque funcione, mas porque nosso cérebro sempre encontra uma maneira de se convencer dele. O efeito de confirmação – um erro cognitivo clássico – é o mecanismo principal.
Se você acredita que a lua cheia significa crise, lembrará de cada queda após a lua cheia e esquecerá os dias de alta. Quando seu “gráfico K-linha da vida" prevê alta, cada pequena valorização será atribuída à realização da previsão, e as quedas serão vistas como “ruído de mercado sem impacto na tendência".
Twitter e outras plataformas sociais amplificam esse efeito. Uma publicação: “Fiz uma operação longa na ETH com base no tarô, em três dias ganhei 20%" – recebe milhares de compartilhamentos. Traders que perderam dinheiro seguindo o tarô não publicam suas derrotas. A comunidade só vê os casos de “previsões que se realizaram" do esoterismo.
Quando o BTC despenca abruptamente, o trader busca uma explicação. Análise técnica fala de quebras, economistas falam de taxas de juros – tudo muito complicado. O esoterismo oferece uma resposta simples: “Saturno em retrogradação, o mercado entra em baixa". Essa explicação se espalha rapidamente, pois exige confiança, não conhecimento.
O mais importante – o esoterismo é irrefutável. Se você perde dinheiro mesmo com um horóscopo favorável ao trading, o mestre responderá: seu horóscopo pessoal é único e requer uma abordagem diferente. Se você ganha – claro, a previsão se confirmou. O tarô mostra “grandes oscilações" – independentemente da direção, pode ser interpretado como uma previsão.
Comunidade ao invés de respostas
A razão final para a popularidade do esoterismo no mundo das criptomoedas é sua função social. Discussões sobre análise técnica terminam em disputas. Sobre esoterismo? Nunca – porque não há certo ou errado, só a experiência compartilhada importa.
“Seu gráfico K-linha da vida é preciso?" – uma pergunta que todos gostam de discutir. Não exige conhecimento técnico, não gera conflitos. Quando você escreve no chat: “Hoje retrogradação de Mercúrio, esperando um momento melhor", alguém responde: “Eu também, vamos passar por essa onda juntos".
Pesquisas do Pew Research de 2025 mostram que 28% dos adultos nos EUA usam astrologia ou tarô pelo menos uma vez ao ano. O esoterismo deixou de ser um fenômeno marginal – é uma necessidade psicológica comum. O mercado de criptomoedas simplesmente elevou isso de “uso privado" para “arena pública".
Gráfico K-linha da vida: consolo em um mercado turbulento
A popularidade da aplicação de dezembro não decorre de sua precisão. Ela expressa elegantemente algo que todo trader sente, mas não admite – nosso controle sobre o mercado é tão ilusório quanto o controle sobre o próprio destino.
Quando você vê uma crise no seu “gráfico K-linha da vida", não vende tudo. Mas, quando realmente perde, sua mente sente alívio: não foi minha culpa, foi um ciclo ruim no horóscopo. Quando perde as altas, o consolo é pensar que isso estava escrito nas estrelas.
Neste mercado, que nunca fecha, cheio de incertezas – não queremos prever o futuro. Queremos apoio psicológico que nos permita permanecer na mesa de negociação.
O esoterismo no mundo das criptomoedas não é um erro – é uma tentativa do ser humano de, em um mundo de incerteza total, encontrar pelo menos uma ilusão de controle.