Tenho visto essa afirmação em todo o lado recentemente — que alguém poderia supostamente desbloquear os 1,1 milhões de bitcoins de Satoshi Nakamoto com apenas uma 24-word recovery phrase. A matemática bate certo na cabeça das pessoas: 1,1M BTC a preços actuais é enorme, por isso os posts ficam virais instantaneamente. Mas há aqui um ponto que continua a ser ignorado: isso é tecnicamente impossível, e não de uma forma de “talvez seja difícil”, mas de uma forma de “simplesmente não funciona”.



Vamos começar pelo problema óbvio. Toda a questão da seed phrase de 24 palavras? Isso é BIP39, que não apareceu até 2013. Satoshi esteve activo desde o início de 2009 até 2010. Nessa altura, as carteiras de Bitcoin apenas geravam chaves privadas brutas de 256 bits e guardavam-nas directamente em ficheiros. Sem mnemónicas, sem recovery phrases, nada disso. Não se pode aplicar retroactivamente a tecnologia de 2013 a uma carteira de 2009. A criptografia não funciona assim, ao contrário.

Mesmo ignorando essa questão do cronograma, há outra camada: as participações de Satoshi em bitcoin não estão protegidas por uma única chave. A investigação mostra que as moedas estão distribuídas por mais de 22,000 chaves privadas individuais associadas a endereços pay-to-public-key iniciais. Por isso, toda a narrativa de “uma única frase desbloqueia tudo” desfaz-se imediatamente.

Depois, há a própria blockchain. Cada endereço de carteira de Satoshi Nakamoto é publicamente rastreado em exploradores como Arkham e Blockchair. Nada foi movido desde 2010. Se alguém realmente tivesse acedido a essa carteira, toda a gente veria isso on-chain instantaneamente. A transparência do Bitcoin é o que torna este rumor impossível de esconder.

Mas vamos supor, hipoteticamente, que alguém tivesse acesso à carteira de Satoshi com padrões criptográficos modernos. Conseguiria fazer força bruta à Bitcoin private key? Não. Um espaço de chaves de 256 bits tem aproximadamente 10 à potência de 77 combinações possíveis. São mais combinações do que existem átomos no observable universe. Mesmo que se atirasse com todo o poder computacional global — 10 à potência de 21 operações por segundo — levaria aproximadamente 10 à potência de 48 anos a quebrar uma única Bitcoin private key. O universo ainda não tem sequer 10 à potência de 10 anos.

A razão pela qual estes posts rebentam é simples: parecem dramáticos. Durante mercados voláteis, as pessoas partilham o que capta a atenção, não o que é tecnicamente correcto. Uma afirmação do tipo “$111 billion locked in 24 words” recebe milhares de likes. As correcções dos investigadores? Talvez uma fracção desse envolvimento.

O que isto realmente destaca é a quantidade de educação sobre Bitcoin que ainda é necessária. A criptografia, a geração de chaves, o design de carteiras — é material denso. As redes sociais comprime-o em frases curtas e, por vezes, essas frases estão simplesmente erradas. A parte tranquilizadora, no entanto? A arquitectura original do Bitcoin, de 2009, continua a manter-se firme. As moedas de Satoshi permanecem intocadas devido a princípios criptográficos postos em marcha há mais de 15 anos, e não por causa de alguma frase mágica a circular por aí. Essa é a verdadeira história de segurança que vale a pena perceber.
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