Por que duas empresas com benefícios semelhantes cotizam a preços completamente diferentes? Como sabem os analistas se uma ação está cara ou barata? A resposta está numa métrica que aparece em quase todas as plataformas financeiras: o PER (Ratio Preço/Lucro). Mas aqui está o truque: calcular o PER é fácil, interpretá-lo corretamente é onde a maioria falha.
O que é realmente o PER e por que deveria importar-te?
O PER é o quociente entre o preço de mercado de uma ação e o benefício que gera periodicamente. As siglas vêm de Price/Earnings Ratio. Na prática, este indicador diz-te quantos anos de lucros uma empresa precisa para “pagar a si mesma” ao seu preço atual.
Se uma empresa tem um PER de 15, significa que os seus lucros anuais precisariam de 15 anos para igualar a sua capitalização bolsista completa.
Embora existam múltiplos rácios para analisar empresas (BPA, P/VC, EBITDA, ROE, ROA), o PER é insubstituível quando procuras comparar rapidamente se estás perante uma pechincha ou uma armadilha. E o mais importante: funciona mesmo para empresas que não pagam dividendos, algo que nem todas as métricas conseguem fazer.
As duas formas de calcular o PER (y por que é tão simples)
Existem duas abordagens equivalentes. Podes trabalhar com magnitudes globais ou com dados por ação:
Método 2 (Nível ação):
PER = Preço da ação ÷ BPA (Benefício por ação)
O bom é que ambas te dão o mesmo resultado, e os dados necessários estão disponíveis em qualquer plataforma financeira. Não precisas ser contabilista para fazer esta operação.
Onde encontrar o PER e como se apresenta
Em qualquer site financeiro sério (Yahoo Finance, Infobolsa, TradingView), o PER aparece junto a outros indicadores como capitalização bolsista, intervalo de 52 semanas e quantidade de ações em circulação.
Nos mercados americanos e britânicos verás como P/E, enquanto que em plataformas espanholas usam PER. O dado é idêntico, só muda a nomenclatura.
Dois exemplos práticos para entenderes
Caso A: Uma empresa vale 2.600 milhões de dólares e ganhou 658 milhões de dólares este ano.
PER = 2.600 ÷ 658 = 3,95
Caso B: Uma ação custa $2,78 e o benefício por ação é $0,09.
PER = 2,78 ÷ 0,09 = 30,9
Vês a diferença? O primeiro é barato, o segundo é caro. Mas não te adiantes: “caro” nem sempre significa “mau”.
O guia de interpretação (embora não seja tão simples como parece)
Existe uma tabela clássica que circula em livros de investimento:
Rango PER
Interpretação
0-10
Baixo (atraente, mas cuidado: pode ser uma armadilha de valor)
10-17
Óptimo (o favorito dos analistas para crescimento sustentado)
17-25
Elevado (crescimento explosivo ou bolha próxima)
+25
Muito elevado (projeções muito positivas ou sobrevalorização extrema)
Aqui vem o problema: esta tabela é útil mas incompleta. Meta (Facebook) ensinou-nos bem. Há anos, o seu PER baixava consistentemente enquanto a ação subia, indicando que ganhava mais lucros ano após ano. Depois, no final de 2022, tudo mudou: o PER continuava a baixar mas a ação despencava. A razão? A Fed aumentou as taxas de juro, penalizando as tecnológicas sem importar o quão baratas parecessem segundo o PER.
Lição: O PER não funciona isolado. É uma bússola, não um mapa completo.
PER vs. PER de Shiller: em quem confiar?
O PER de Shiller é uma variante que tenta resolver um problema fundamental do PER tradicional: olha apenas para um ano de lucros.
Qual é o problema? Um ano é demasiado curto. Os lucros flutuam. Uma empresa pode ter um ano mau ou um ano espetacular sem que isso reflita a sua realidade a longo prazo.
O PER de Shiller tira a média dos lucros dos últimos 10 anos, ajustados pela inflação. A lógica é que, com essa perspetiva mais ampla, podes prever melhor os próximos 20 anos de ganhos.
Mas nem mesmo Shiller escapa aos críticos. Alguns analistas argumentam que olhar para 10 anos atrás é olhar ao espelho retrovisor enquanto conduzes em direção ao futuro.
O PER normalizado: quando precisas olhar além
Existe outra variante mais sofisticada: o PER normalizado, que ajusta a equação para refletir melhor a saúde financeira real.
Em vez de usar benefício líquido, usa o Free Cash Flow. E em vez de apenas capitalização de mercado, subtrai ativos líquidos e soma dívida financeira. Esta métrica “descasca a cebola” e mostra-te só o essencial.
O exemplo clássico: quando o Banco Santander comprou o Banco Popular por 1 euro em 2017, muitos pensaram que era uma pechincha. Na verdade, assumiu uma dívida massiva que outros bancos (como Bankia e BBVA) não quiseram tocar. O PER convencional teria enganado; o normalizado teria mostrado a verdadeira história.
Baixo PER = Boa investimento? Nem sempre
Aqui está a verdadeira arte de investir. Um PER baixo é sedutor, mas pode ser a evidência de que o mercado já sabe algo que tu não sabes.
Olha para a Arcelor Mittal (indústria metalúrgica) com um PER de 2,58. É barato. Mas porquê? Porque o setor é cíclico e maduro, com poucas surpresas de crescimento. Agora compara com a Zoom Video, que chegou a um PER de 202,49 durante a pandemia. É muito caro, mas reflete as expectativas de crescimento exponencial.
Comparar Arcelor Mittal com Zoom usando só PER é comparar peras com maçãs. Os setores tecnológicos e biotecnológicos naturalmente têm PER mais altos que setores maduros como banca ou indústria.
As vantagens que não podes ignorar
É simples: Conseguir o dado e calculá-lo leva menos de um minuto
É comparativo: Funciona perfeitamente para medir empresas do mesmo setor
É universal: Funciona mesmo em empresas sem dividendos
É respeitado: Nenhum analista sério ignora o PER; faz parte da análise fundamental básica
As armadilhas que deves evitar
Olhar só para um ano: Os lucros podem ser uma anomalia
Não funciona em perdas: Se uma empresa não é rentável, o PER é irrelevante
É estático: Não te diz nada sobre a qualidade da gestão futura
É um desastre em cíclicas: Uma empresa mineira ou bancária terá PER baixo em bons ciclos e altíssimo em maus ciclos
Porque os investidores Value adoram (mas Growth ignora)
No mundo do Value Investing, o objetivo é “encontrar boas empresas a preço justo”. O PER é a ferramenta preferida aqui. Fundos como Horos Value Internacional (PER de 7,24 vs. média do setor 14,55) ou Cobas Internacional (PER de 5,46) constroem carteiras procurando essa combinação de qualidade e desconto.
Os investidores Growth, pelo contrário, estão dispostos a pagar qualquer preço hoje se acreditam que o crescimento futuro o justificará.
Combina o PER com outras métricas ou fracassarás
Aqui vem o importante: nunca invests apenas com base no PER. Combina-o com:
BPA: para entender a trajetória dos lucros
ROE e ROA: para medir a eficiência da empresa
Preço/Valor Contabilístico: para ver se há ativos subjacentes
Free Cash Flow: para garantir que os lucros são reais, não contabilísticos
Além disso, dedica tempo a estudar a composição dos lucros. Pode uma empresa ter lucros altos, mas se provêm da venda de um ativo de uma só vez (não do negócio principal), não esperes que se repitam.
A conclusão que provavelmente não queres ouvir
O PER é uma ferramenta extraordinária mas incompleta. É especialmente útil quando comparas empresas do mesmo setor e geografia, sob as mesmas condições de mercado.
Mas investir apenas com PER baixo é uma receita para o fracasso. A história está cheia de empresas com PER baixo que faliram porque a sua gestão era desastrosa. O mercado mantinha-as baratas por uma razão: as pessoas não confiavam nelas.
A fórmula vencedora: PER baixo + setor forte + gestão competente + crescimento visível + análise fundamental profunda. Não é garantia de sucesso, mas é infinitamente melhor do que apenas olhar para um número.
Dedica pelo menos 10 minutos a investigar as entranhas de qualquer empresa antes de decidir. Esse pequeno esforço é a diferença entre um investimento inteligente e um desastre financeiro.
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PER: A bússola que todo investidor precisa (mas quase ninguém sabe usar corretamente)
Por que duas empresas com benefícios semelhantes cotizam a preços completamente diferentes? Como sabem os analistas se uma ação está cara ou barata? A resposta está numa métrica que aparece em quase todas as plataformas financeiras: o PER (Ratio Preço/Lucro). Mas aqui está o truque: calcular o PER é fácil, interpretá-lo corretamente é onde a maioria falha.
O que é realmente o PER e por que deveria importar-te?
O PER é o quociente entre o preço de mercado de uma ação e o benefício que gera periodicamente. As siglas vêm de Price/Earnings Ratio. Na prática, este indicador diz-te quantos anos de lucros uma empresa precisa para “pagar a si mesma” ao seu preço atual.
Se uma empresa tem um PER de 15, significa que os seus lucros anuais precisariam de 15 anos para igualar a sua capitalização bolsista completa.
Embora existam múltiplos rácios para analisar empresas (BPA, P/VC, EBITDA, ROE, ROA), o PER é insubstituível quando procuras comparar rapidamente se estás perante uma pechincha ou uma armadilha. E o mais importante: funciona mesmo para empresas que não pagam dividendos, algo que nem todas as métricas conseguem fazer.
As duas formas de calcular o PER (y por que é tão simples)
Existem duas abordagens equivalentes. Podes trabalhar com magnitudes globais ou com dados por ação:
Método 1 (Nível empresa): PER = Capitalização bolsista ÷ Benefício líquido
Método 2 (Nível ação): PER = Preço da ação ÷ BPA (Benefício por ação)
O bom é que ambas te dão o mesmo resultado, e os dados necessários estão disponíveis em qualquer plataforma financeira. Não precisas ser contabilista para fazer esta operação.
Onde encontrar o PER e como se apresenta
Em qualquer site financeiro sério (Yahoo Finance, Infobolsa, TradingView), o PER aparece junto a outros indicadores como capitalização bolsista, intervalo de 52 semanas e quantidade de ações em circulação.
Nos mercados americanos e britânicos verás como P/E, enquanto que em plataformas espanholas usam PER. O dado é idêntico, só muda a nomenclatura.
Dois exemplos práticos para entenderes
Caso A: Uma empresa vale 2.600 milhões de dólares e ganhou 658 milhões de dólares este ano.
PER = 2.600 ÷ 658 = 3,95
Caso B: Uma ação custa $2,78 e o benefício por ação é $0,09.
PER = 2,78 ÷ 0,09 = 30,9
Vês a diferença? O primeiro é barato, o segundo é caro. Mas não te adiantes: “caro” nem sempre significa “mau”.
O guia de interpretação (embora não seja tão simples como parece)
Existe uma tabela clássica que circula em livros de investimento:
Aqui vem o problema: esta tabela é útil mas incompleta. Meta (Facebook) ensinou-nos bem. Há anos, o seu PER baixava consistentemente enquanto a ação subia, indicando que ganhava mais lucros ano após ano. Depois, no final de 2022, tudo mudou: o PER continuava a baixar mas a ação despencava. A razão? A Fed aumentou as taxas de juro, penalizando as tecnológicas sem importar o quão baratas parecessem segundo o PER.
Lição: O PER não funciona isolado. É uma bússola, não um mapa completo.
PER vs. PER de Shiller: em quem confiar?
O PER de Shiller é uma variante que tenta resolver um problema fundamental do PER tradicional: olha apenas para um ano de lucros.
Qual é o problema? Um ano é demasiado curto. Os lucros flutuam. Uma empresa pode ter um ano mau ou um ano espetacular sem que isso reflita a sua realidade a longo prazo.
O PER de Shiller tira a média dos lucros dos últimos 10 anos, ajustados pela inflação. A lógica é que, com essa perspetiva mais ampla, podes prever melhor os próximos 20 anos de ganhos.
Mas nem mesmo Shiller escapa aos críticos. Alguns analistas argumentam que olhar para 10 anos atrás é olhar ao espelho retrovisor enquanto conduzes em direção ao futuro.
O PER normalizado: quando precisas olhar além
Existe outra variante mais sofisticada: o PER normalizado, que ajusta a equação para refletir melhor a saúde financeira real.
Em vez de usar benefício líquido, usa o Free Cash Flow. E em vez de apenas capitalização de mercado, subtrai ativos líquidos e soma dívida financeira. Esta métrica “descasca a cebola” e mostra-te só o essencial.
O exemplo clássico: quando o Banco Santander comprou o Banco Popular por 1 euro em 2017, muitos pensaram que era uma pechincha. Na verdade, assumiu uma dívida massiva que outros bancos (como Bankia e BBVA) não quiseram tocar. O PER convencional teria enganado; o normalizado teria mostrado a verdadeira história.
Baixo PER = Boa investimento? Nem sempre
Aqui está a verdadeira arte de investir. Um PER baixo é sedutor, mas pode ser a evidência de que o mercado já sabe algo que tu não sabes.
Olha para a Arcelor Mittal (indústria metalúrgica) com um PER de 2,58. É barato. Mas porquê? Porque o setor é cíclico e maduro, com poucas surpresas de crescimento. Agora compara com a Zoom Video, que chegou a um PER de 202,49 durante a pandemia. É muito caro, mas reflete as expectativas de crescimento exponencial.
Comparar Arcelor Mittal com Zoom usando só PER é comparar peras com maçãs. Os setores tecnológicos e biotecnológicos naturalmente têm PER mais altos que setores maduros como banca ou indústria.
As vantagens que não podes ignorar
As armadilhas que deves evitar
Porque os investidores Value adoram (mas Growth ignora)
No mundo do Value Investing, o objetivo é “encontrar boas empresas a preço justo”. O PER é a ferramenta preferida aqui. Fundos como Horos Value Internacional (PER de 7,24 vs. média do setor 14,55) ou Cobas Internacional (PER de 5,46) constroem carteiras procurando essa combinação de qualidade e desconto.
Os investidores Growth, pelo contrário, estão dispostos a pagar qualquer preço hoje se acreditam que o crescimento futuro o justificará.
Combina o PER com outras métricas ou fracassarás
Aqui vem o importante: nunca invests apenas com base no PER. Combina-o com:
Além disso, dedica tempo a estudar a composição dos lucros. Pode uma empresa ter lucros altos, mas se provêm da venda de um ativo de uma só vez (não do negócio principal), não esperes que se repitam.
A conclusão que provavelmente não queres ouvir
O PER é uma ferramenta extraordinária mas incompleta. É especialmente útil quando comparas empresas do mesmo setor e geografia, sob as mesmas condições de mercado.
Mas investir apenas com PER baixo é uma receita para o fracasso. A história está cheia de empresas com PER baixo que faliram porque a sua gestão era desastrosa. O mercado mantinha-as baratas por uma razão: as pessoas não confiavam nelas.
A fórmula vencedora: PER baixo + setor forte + gestão competente + crescimento visível + análise fundamental profunda. Não é garantia de sucesso, mas é infinitamente melhor do que apenas olhar para um número.
Dedica pelo menos 10 minutos a investigar as entranhas de qualquer empresa antes de decidir. Esse pequeno esforço é a diferença entre um investimento inteligente e um desastre financeiro.