PER: A Métrica que Todo Investidor Deve Entender para Selecionar Empresas

Quando se trata de escolher em que empresas investir, existe uma métrica fundamental que nunca deveria faltar na tua análise: o PER (Price/Earnings Ratio ou Ratio Preço/Lucro). Trata-se de um dos indicadores mais confiáveis para determinar se uma ação está realmente cara ou barata, e a sua importância reside não só em comparar empresas, mas em medir o potencial de crescimento das mesmas.

Entendendo o PER: O Que Nos Diz Realmente?

O PER é uma relação que compara o preço de uma ação no mercado com os lucros que a empresa gera periodicamente. Em termos simples, indica quantos anos de lucros atuais uma empresa precisaria para justificar a sua avaliação atual na bolsa.

Por exemplo, se uma empresa tem um PER de 15, significa que os seus lucros anuais (extrapolados a 12 meses) demorariam 15 anos a “pagar” o valor total da companhia segundo a sua cotação atual.

Este indicador é tão relevante que faz parte das seis razões essenciais para analisar a saúde financeira de uma empresa:

  1. O PER
  2. O BPA (Benefício Por Ação)
  3. O P/VC (Preço/Valor Contabilístico)
  4. O EBITDA
  5. O ROE (Rentabilidade sobre o Património)
  6. O ROA (Rentabilidade sobre Ativos)

Como Calcular o PER de Forma Simples

O cálculo do PER é muito mais acessível do que parece. Existem dois métodos equivalentes que fornecem o mesmo resultado:

Método 1 (Números Globais): Capitalização de Mercado ÷ Lucro Líquido = PER

Método 2 (Por Ação): Preço da Ação ÷ BPA (Benefício Por Ação) = PER

Ambas as abordagens funcionam perfeitamente. A informação necessária está disponível publicamente em qualquer plataforma financeira, pelo que podes calculá-la em segundos.

Exemplos Práticos de Cálculo

Imaginemos dois cenários reais:

Uma empresa tem uma capitalização de 2.600 milhões de dólares e lucros de 658 milhões. O seu PER seria 3,95 — um valor extremamente baixo que sugere que está infravalorada.

Noutro caso, uma ação cotiza a 2,78 dólares com um BPA de 0,09 dólares. O seu PER seria 30,9 — um valor bastante elevado que indica uma avaliação alta.

O Que Significam os Diferentes Níveis do PER?

A interpretação do PER segue certos padrões aceites pelos analistas:

PER entre 0 e 10: Pode ser atrativo, mas também alerta que os lucros poderão cair em exercícios futuros. Geralmente indica empresas com problemas ou em setores cíclicos deprimidos.

PER entre 10 e 17: Este é o intervalo preferido por muitos analistas. Sugere uma empresa com crescimento moderado a médio prazo sem expectativas de problemas imediatos.

PER entre 17 e 25: Pode significar duas coisas: que a empresa cresceu significativamente desde o último relatório, ou que estamos perto de uma bolha especulativa sobre o seu valor.

PER maior que 25: Aqui a interpretação é ambígua. Pode refletir projeções muito positivas sobre o futuro da empresa, ou ser o sintoma de uma enorme sobrevalorização.

O Contexto Setorial: Nem Todas as Empresas São Iguais

Um dos erros mais comuns é comparar empresas de setores completamente diferentes. Um banco não deve ser comparado com uma tecnológica, e uma construtora não é equivalente a uma biotecnológica.

Cada setor tem a sua própria dinâmica de PER. As empresas bancárias e industriais costumam manter ratios baixos (entre 2 e 10), enquanto que as tecnológicas e biotecnológicas frequentemente apresentam valores entre 40 e 200 ou mais.

Para uma análise válida, compara sempre empresas do mesmo setor geográfico e de negócio. Caso contrário, estarás a comparar “maçãs com laranjas”.

PER de Shiller vs PER Tradicional: Uma Perspetiva Diferente

Existe uma variante chamada PER de Shiller que aborda as limitações do PER tradicional. Enquanto que o PER convencional só considera os lucros de um ano (período muito curto e volátil), o PER de Shiller usa a média dos lucros dos últimos 10 anos ajustados pela inflação.

A teoria por trás do PER de Shiller sugere que observar uma década de resultados permite projetar com maior precisão os lucros dos próximos 20 anos. Embora tenha seus defensores, também possui críticos que questionam a sua utilidade prática.

Combinando o PER com Outras Métricas Cruciais

Aqui vem a verdade incómoda: nunca deves investir apenas com base no PER. Existem empresas com ratios baixos que estão praticamente à beira da falência, e o seu baixo PER é precisamente porque ninguém confia nelas.

Uma análise sólida requer complementar o PER com outras ferramentas:

  • BPA (Benefício Por Ação): Para validar a qualidade dos lucros
  • ROE (Rentabilidade sobre o Património): Mede quão eficientemente a empresa usa o dinheiro dos acionistas
  • ROA (Rentabilidade sobre Ativos): Indica a eficiência no uso dos ativos
  • Preço/Valor Contabilístico: Para avaliar se a empresa está cara relativamente ao seu património líquido

Além disso, dedica tempo a revisar a composição dos lucros. Provenientes do core business ou de uma venda pontual de ativos? Esta diferença é crucial.

As Limitações do PER que Deves Conhecer

Nem tudo brilha com o PER. As suas deficiências incluem:

  • Período curto: Apenas analisa lucros de um ano, o que pode ser enganoso em empresas cíclicas
  • Inaplicável em prejuízos: Se uma empresa não gera lucros, o PER é irrelevante
  • Estático, não dinâmico: Não reflete mudanças futuras na gestão ou no mercado
  • Problemas cíclicos: Em empresas do ciclo económico, o PER sobe em recessões (poucos lucros) e baixa em expansões (muitos lucros), tornando-o contracíclico e impreciso

Vantagens Que Não Deves Ignorar

Apesar das suas limitações, o PER continua a ser uma ferramenta valiosa porque:

  • É extremamente fácil de obter e calcular
  • Permite comparar rapidamente empresas do mesmo setor
  • Funciona mesmo em empresas que não pagam dividendos
  • Continua a ser uma das três métricas mais consultadas por investidores profissionais

O Value Investing e o PER: Uma Relação Natural

Os investidores orientados ao Value Investing (procuram boas empresas a bom preço) utilizam intensivamente o PER como filtro inicial. Fundos especializados nesta estratégia tipicamente apresentam ratios significativamente abaixo da média da sua categoria, refletindo o seu enfoque conservador na procura de oportunidades infravaloradas.

Reflexão Final: Usa o PER com Inteligência

O PER é uma ferramenta poderosa, mas como todas as ferramentas, requer um manuseamento experiente. Não é uma bola de cristal que prevê o futuro, mas um espelho que reflete o que o mercado pensa sobre os lucros presentes de uma empresa.

Para construir um portefólio sólido e rentável, usa o PER como ponto de partida, mas aprofunda sempre na análise fundamental. Estuda as magnitudes do negócio, a qualidade da gestão, o setor em que a empresa opera e como está posicionada face às suas concorrentes.

Dedica pelo menos 10 minutos a entender realmente em que empresa estás a investir. O PER é a tua bússola, mas a tua diligência devida é o teu mapa.

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