Uma pessoa pode ganhar 1 bilhão de dólares no mercado, mas acabar na vida falida, com apenas 8,24 dólares.
Em 28 de novembro de 1941, véspera de Ação de Graças, um disparo foi ouvido no guarda-roupa do hotel Shelley-Holland, em Manhattan, Nova York. Jesse Lauriston Livermore, aos 63 anos, terminou com a própria vida com uma pistola Colt .32. Ele foi um dos traders mais lendários de Wall Street e uma figura considerada “bíblica” por Buffett. Mas esse gênio, que chegou a ter mais de um bilhão de dólares, deixou apenas três palavras de despedida: “Minha vida foi um fracasso. Estou cansado de lutar, não aguento mais. Essa é a única saída.”
Sua história não é simplesmente um “do zero a milhões”, mas uma prova mais complexa da condição humana — como se perde-se o rumo entre dinheiro e desejo, como se oscila entre genialidade e autodestruição.
Jovem relutante em trabalhar na agricultura, inicia uma lenda financeira com 5 dólares
Em 1877, Livermore nasceu numa família de agricultores em Massachusetts. Aos três anos e meio aprendeu a ler e escrever, aos cinco já lia jornais financeiros, e tinha talento matemático muito acima da média — uma criança prodígio assim, mas que foi forçada pelo pai a trabalhar na fazenda.
Aos 14 anos, uma briga acirrada com o pai mudou sua trajetória. Sua mãe secretamente reuniu 5 dólares (equivalente a cerca de 180 dólares atuais), e na primavera de 1891, esse jovem do interior embarcou num trem para Boston. Ele não foi para a casa de parentes indicados pela mãe, mas parou na porta da Paine Webber, uma corretora de ações. Os números pulsantes na tela atraíram toda sua atenção, e com uma aparência um pouco mais madura, conseguiu um emprego como registrador de cotações.
Como muitos gênios, Livermore descobriu padrões ocultos em trabalhos aparentemente comuns. Usando um caderno de quadrados de 1 centavo, traçou curvas de ações e percebeu que o preço da Union Pacific Railway oscilava de forma semelhante em horários específicos (11h15 e 14h30), como se fosse impulsionado por uma maré invisível. Ele também descobriu padrões por trás de grandes ordens de compra nos registros dos corretores, percebendo que esses números não eram aleatórios, mas tinham lógica.
Ao registrar os preços futuros de algodão, teve uma epifania: “Esses números respiram — quando sobem, parecem subir escadas; quando caem, parecem desmoronar como uma pilha de neve.” Essa descoberta estabeleceu a base para sua teoria de análise técnica.
Aos 16 anos, trader em tempo integral, o “problemático” que foi banido várias vezes
Livermore encontrou uma casa de apostas, investiu 5 dólares e obteve um lucro de 3,12 dólares. Trabalhando e negociando ao mesmo tempo, aos 16 anos decidiu abandonar o emprego e se tornar um trader profissional.
Era como um mestre de artes marciais que entra no ringue: em poucos anos, ganhou fama. Mas, justamente por sempre ganhar dinheiro, foi banido por várias casas de apostas em Boston. Esse jovem de pouco mais de 20 anos conseguiu fazer com que os cassinos fechassem as portas para ele — ele acumulou 10.000 dólares (cerca de 30 mil dólares atuais).
Primeira derrota em Nova York: a primeira lição de um gênio
Em 1899, mudou-se para Nova York. Aos 23 anos, conheceu a índia Nattie Jordan, com quem se casou semanas depois. Ainda inexperiente, não conseguiu se adaptar ao palco maior. Usava um gravador automático de cotações para fazer suas operações, mas esses dados atrasavam 30 a 40 minutos o mercado real, levando-o a fracassar. Menos de um ano após o casamento, quebrou por causa de suas perdas.
Para levantar fundos, pediu à esposa que penhorasse suas joias, mas foi recusado. Seis anos depois, divorciaram-se.
Esse fracasso plantou uma semente: Livermore começou a duvidar de si mesmo, ficou deprimido, e esse estado emocional evoluiria para uma depressão profunda anos depois.
A primeira batalha épica do “louco por short”: três meses de ganhos de US$ 7,5 milhões
De 1899 a 1906, Livermore se reergueu em sete anos. Aos 28 anos, tinha acumulado 100 mil dólares de capital. Mas começou a se criticar — tinha dinheiro, mas se sentia insatisfeito, operava de forma conservadora. Durante férias em Palm Beach, refletiu profundamente.
A oportunidade surgiu em 18 de abril de 1906. O terremoto de 7,9 graus em São Francisco destruiu a cidade. O mercado, em geral, era otimista com a Union Pacific, acreditando que a reconstrução impulsionaria o demanda de transporte. Mas Livermore tinha uma visão contrária.
Seu raciocínio era claro:
Fundamental: o terremoto reduziu drasticamente o volume de cargas em São Francisco; seguradoras precisariam vender ações blue-chip para levantar dinheiro; os relatórios da UP seriam muito abaixo do esperado.
Técnico: o preço subia, mas o volume de negociações diminuía, indicando fraqueza na demanda; esperou o preço atingir um suporte crítico para começar a montar sua posição.
Ele executou seu plano em três fases: em maio, short a US$ 160; em junho, após divulgar relatórios pessimistas, aumentou a posição; em julho, quando o preço caiu abaixo de US$ 100, saiu perto de US$ 90, obtendo lucro superior a US$ 250 mil (equivalente a US$ 7,5 milhões atuais).
A partir dessa operação, os outros aprenderam que a estratégia de Livermore era: esperar a confirmação da tendência antes de agir com força, sabendo que “boas notícias já estão todas no mercado”, sempre manter uma reserva de capital para as oscilações. Essas regras continuam válidas até hoje, 120 anos depois.
Pânico de 1907: Livermore lucrou cerca de de dólares em uma semana
Em 1907, Livermore descobriu que o Trust de Nova York investia alavancado em títulos de lixo, e a taxa de juros interbancária disparou de 6% para 100% — sinal de uma crise de liquidez. Investigou pessoalmente, confirmando que várias trust companies tinham ativos de péssima qualidade.
Ele fez uma operação de venda a descoberto dispersa em várias corretoras, apostando contra Union Pacific, US Steel e outras ações de peso. Em 14 de outubro, questionou publicamente a capacidade de pagamento do Trust de Nickebork, provocando uma corrida bancária e falências.
Em 22 de outubro, usando a regra de liquidação T+0, concentrou suas vendas, acionando ordens automáticas de stop-loss, acelerando o colapso. Em 24 de outubro, o presidente da Bolsa de Nova York implorou para que ele parasse de vender a descoberto, sob risco de um colapso total. Livermore saiu com precisão uma hora antes, liquidando 70% de suas posições vendidas.
Lucro total: US$ 3 milhões, aproximadamente @E5@ de dólares atuais.
Essa batalha consolidou sua reputação de “rei dos curtos de Wall Street” e mostrou o poder da informação privilegiada e do psicológico de mercado.
A autopenalização do gênio: prejuízo de US$ 3 milhões em algodão
Porém, a natureza humana às vezes vence o gênio.
Seu amigo Teddy Plais, autoridade no mercado de algodão, tinha informações privilegiadas. Plais era otimista com o algodão, e Livermore, querendo “provar sua habilidade de operar em vários mercados”, foi manipulado. Mesmo com dados contrários ao que seu amigo dizia, acreditou nele e apostou 300 milhões de libras em contratos futuros de algodão — uma aposta muito maior do que sua capacidade.
Resultado: prejuízo de US$ 3 milhões, equivalente a toda a lucratividade de 1907 na venda a descoberto. Essa derrota violou suas três regras de ferro: nunca confiar cegamente em conselhos, nunca cobrir posições perdedoras, e nunca deixar que a narrativa supere o sinal de preço.
Na verdade, não foi uma traição do amigo, mas uma autopenalização do próprio gênio — o preço de uma aposta fracassada de um jogador.
Contra-ataque final: de US$ 50 mil a US$ 300 milhões
Após fracassar na negociação de algodão em 1915, Livermore ressurgiu de forma lendária.
Ele pediu proteção contra falência, negociou com credores para manter apenas US$ 50 mil de subsistência. Usou uma linha de crédito secreta obtida de antigos rivais, com a condição de que todas as operações fossem feitas por eles — uma espécie de monitoramento, que também o forçou a usar uma alavancagem de 1:5 (antes, usava 1:20).
Essas restrições ajudaram a restabelecer sua disciplina de trading.
Na mesma época, a Primeira Guerra Mundial explodiu, e os pedidos militares nos EUA aumentaram. Livermore percebeu que as ações da Bethlehem Steel ainda não refletiam essa tendência. O volume aumentava, mas o preço permanecia lateral — sinal clássico de acumulação.
A partir de julho de 1915, começou a comprar com 5% do capital a US$ 50. Em agosto, ao ultrapassar US$ 60, aumentou a posição para 30%. Em setembro, ao recuar para US$ 58, recusou-se a parar de perder, acreditando que a tendência de alta não tinha sido rompida. Em janeiro do ano seguinte, o preço disparou para US$ 700, e ele saiu com um lucro de 14 vezes — US$ 50 mil viraram US$ 300 milhões.
A maldição do dinheiro: três casamentos e quatro falências
Nas décadas seguintes, Livermore continuou sua saga de dinheiro e mulheres.
Criou uma firma de trading, lucrou US$ 15 milhões, e tinha 60 funcionários. Em 1925, ganhou US$ 10 milhões negociando trigo e milho. Em 1929, na grande crise de Wall Street, lucrou US$ 1 bilhão vendendo a descoberto (equivalente a cerca de US$ 15 bilhões atuais).
Mas, nos anos seguintes, esse dinheiro foi consumido por divórcios, impostos, gastos excessivos e outros fatores.
Após um longo divórcio de sua primeira esposa, Nattie, casou-se com a dançarina Dorothy, com quem teve dois filhos. Mas também teve um relacionamento complicado com a atriz de ópera Anita, e usou o nome dela para batizar um iate de luxo. Dorothy se tornou cada vez mais dependente de álcool.
Em 1931, divorciou-se novamente, e Dorothy recebeu US$ 10 milhões de partilha. A casa que compraram por US$ 3,5 milhões foi vendida por apenas US$ 222 mil. Essa mansão, símbolo de anos de felicidade, foi demolida, e a depressão de Livermore se aprofundou. As joias e alianças de casamento que deu a Dorothy foram vendidas por pouco — um golpe mortal para seu psicológico.
Esse detalhe mostra duas coisas: que o gênio não suporta humilhação emocional, e que mulheres divorciadas podem ser assustadoras.
Em 1932, aos 55 anos, conheceu a socialite divorciada Harriet Mets Nobile, apelidada de “viúva social”. Ela pode ter interpretado mal a situação financeira de Livermore — que já devia US$ 2 milhões. Após sua última falência, em 1934, tiveram que deixar o apartamento em Manhattan, vendendo joias para sobreviver.
O último escuro: rumo ao irreversível
Em novembro de 1940, Harriet se suicidou no quarto de hotel com a mesma pistola que Livermore usou. A carta dizia que não suportava a pobreza e o alcoolismo dele. Livermore escreveu em seu diário: “Eu matei todos que se aproximaram de mim.”
Um ano depois, em 28 de novembro de 1941, no mesmo hotel, imerso na depressão, Livermore disparou na própria têmpora. Era a mesma arma que usara em 1907, quando fez uma grande operação a descoberto — parecia um ciclo fatal.
No bolso, restaram apenas US$ 8,24 em dinheiro e um bilhete de aposta de cavalos vencido. Apenas 15 pessoas compareceram ao seu funeral, incluindo dois credores.
Até 1999, só após uma campanha de fãs seu nome foi gravado na lápide: “Sua vida prova que a lâmina mais afiada do mercado também pode ferir a si mesmo.”
O legado lendário: as regras centrais da Bíblia do trading
Livermore passou por altos e baixos, deixando uma filosofia de trading que Buffett, Soros e Peter Lynch consideram sagrada:
Compre ações em alta, venda em baixa
Operar apenas quando há tendência clara
Wall Street não mudou, porque a natureza humana também não
Investidores devem estar atentos a muitas coisas, especialmente a si mesmos
O mercado nunca erra, só o ser humano
Para ganhar muito, é preciso esperar, não operar frequentemente
O mercado só tem um lado, que é o lado certo
A vida de Livermore é a explicação dessas regras — ele dominava o mercado, mas foi vencido por si mesmo; venceu Wall Street, mas não conseguiu vencer sua própria natureza.
“The New Yorker” avaliou: ‘Livermore era preciso como uma faca cirúrgica no mercado, mas cego como um bêbado na vida amorosa. Passou a vida vendendo a descoberto, mas sempre apostando na paixão — e ambas o destruíram.’"
De 5 dólares a bilhão, e de bilhão a 8,24 dólares, Livermore viveu uma vida que exemplifica a contradição entre dinheiro e desejo — quando alguém domina as leis do mercado, mas não consegue controlar seus próprios demônios, toda riqueza se desfaz em pó.
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De 5 dólares a uma fortuna de milhões e, por fim, um tiro — por que motivo o lendário de Wall Street, Li Fo Mo, se despediu?
Uma pessoa pode ganhar 1 bilhão de dólares no mercado, mas acabar na vida falida, com apenas 8,24 dólares.
Em 28 de novembro de 1941, véspera de Ação de Graças, um disparo foi ouvido no guarda-roupa do hotel Shelley-Holland, em Manhattan, Nova York. Jesse Lauriston Livermore, aos 63 anos, terminou com a própria vida com uma pistola Colt .32. Ele foi um dos traders mais lendários de Wall Street e uma figura considerada “bíblica” por Buffett. Mas esse gênio, que chegou a ter mais de um bilhão de dólares, deixou apenas três palavras de despedida: “Minha vida foi um fracasso. Estou cansado de lutar, não aguento mais. Essa é a única saída.”
Sua história não é simplesmente um “do zero a milhões”, mas uma prova mais complexa da condição humana — como se perde-se o rumo entre dinheiro e desejo, como se oscila entre genialidade e autodestruição.
Jovem relutante em trabalhar na agricultura, inicia uma lenda financeira com 5 dólares
Em 1877, Livermore nasceu numa família de agricultores em Massachusetts. Aos três anos e meio aprendeu a ler e escrever, aos cinco já lia jornais financeiros, e tinha talento matemático muito acima da média — uma criança prodígio assim, mas que foi forçada pelo pai a trabalhar na fazenda.
Aos 14 anos, uma briga acirrada com o pai mudou sua trajetória. Sua mãe secretamente reuniu 5 dólares (equivalente a cerca de 180 dólares atuais), e na primavera de 1891, esse jovem do interior embarcou num trem para Boston. Ele não foi para a casa de parentes indicados pela mãe, mas parou na porta da Paine Webber, uma corretora de ações. Os números pulsantes na tela atraíram toda sua atenção, e com uma aparência um pouco mais madura, conseguiu um emprego como registrador de cotações.
Como muitos gênios, Livermore descobriu padrões ocultos em trabalhos aparentemente comuns. Usando um caderno de quadrados de 1 centavo, traçou curvas de ações e percebeu que o preço da Union Pacific Railway oscilava de forma semelhante em horários específicos (11h15 e 14h30), como se fosse impulsionado por uma maré invisível. Ele também descobriu padrões por trás de grandes ordens de compra nos registros dos corretores, percebendo que esses números não eram aleatórios, mas tinham lógica.
Ao registrar os preços futuros de algodão, teve uma epifania: “Esses números respiram — quando sobem, parecem subir escadas; quando caem, parecem desmoronar como uma pilha de neve.” Essa descoberta estabeleceu a base para sua teoria de análise técnica.
Aos 16 anos, trader em tempo integral, o “problemático” que foi banido várias vezes
Livermore encontrou uma casa de apostas, investiu 5 dólares e obteve um lucro de 3,12 dólares. Trabalhando e negociando ao mesmo tempo, aos 16 anos decidiu abandonar o emprego e se tornar um trader profissional.
Era como um mestre de artes marciais que entra no ringue: em poucos anos, ganhou fama. Mas, justamente por sempre ganhar dinheiro, foi banido por várias casas de apostas em Boston. Esse jovem de pouco mais de 20 anos conseguiu fazer com que os cassinos fechassem as portas para ele — ele acumulou 10.000 dólares (cerca de 30 mil dólares atuais).
Primeira derrota em Nova York: a primeira lição de um gênio
Em 1899, mudou-se para Nova York. Aos 23 anos, conheceu a índia Nattie Jordan, com quem se casou semanas depois. Ainda inexperiente, não conseguiu se adaptar ao palco maior. Usava um gravador automático de cotações para fazer suas operações, mas esses dados atrasavam 30 a 40 minutos o mercado real, levando-o a fracassar. Menos de um ano após o casamento, quebrou por causa de suas perdas.
Para levantar fundos, pediu à esposa que penhorasse suas joias, mas foi recusado. Seis anos depois, divorciaram-se.
Esse fracasso plantou uma semente: Livermore começou a duvidar de si mesmo, ficou deprimido, e esse estado emocional evoluiria para uma depressão profunda anos depois.
A primeira batalha épica do “louco por short”: três meses de ganhos de US$ 7,5 milhões
De 1899 a 1906, Livermore se reergueu em sete anos. Aos 28 anos, tinha acumulado 100 mil dólares de capital. Mas começou a se criticar — tinha dinheiro, mas se sentia insatisfeito, operava de forma conservadora. Durante férias em Palm Beach, refletiu profundamente.
A oportunidade surgiu em 18 de abril de 1906. O terremoto de 7,9 graus em São Francisco destruiu a cidade. O mercado, em geral, era otimista com a Union Pacific, acreditando que a reconstrução impulsionaria o demanda de transporte. Mas Livermore tinha uma visão contrária.
Seu raciocínio era claro:
Ele executou seu plano em três fases: em maio, short a US$ 160; em junho, após divulgar relatórios pessimistas, aumentou a posição; em julho, quando o preço caiu abaixo de US$ 100, saiu perto de US$ 90, obtendo lucro superior a US$ 250 mil (equivalente a US$ 7,5 milhões atuais).
A partir dessa operação, os outros aprenderam que a estratégia de Livermore era: esperar a confirmação da tendência antes de agir com força, sabendo que “boas notícias já estão todas no mercado”, sempre manter uma reserva de capital para as oscilações. Essas regras continuam válidas até hoje, 120 anos depois.
Pânico de 1907: Livermore lucrou cerca de de dólares em uma semana
Em 1907, Livermore descobriu que o Trust de Nova York investia alavancado em títulos de lixo, e a taxa de juros interbancária disparou de 6% para 100% — sinal de uma crise de liquidez. Investigou pessoalmente, confirmando que várias trust companies tinham ativos de péssima qualidade.
Ele fez uma operação de venda a descoberto dispersa em várias corretoras, apostando contra Union Pacific, US Steel e outras ações de peso. Em 14 de outubro, questionou publicamente a capacidade de pagamento do Trust de Nickebork, provocando uma corrida bancária e falências.
Em 22 de outubro, usando a regra de liquidação T+0, concentrou suas vendas, acionando ordens automáticas de stop-loss, acelerando o colapso. Em 24 de outubro, o presidente da Bolsa de Nova York implorou para que ele parasse de vender a descoberto, sob risco de um colapso total. Livermore saiu com precisão uma hora antes, liquidando 70% de suas posições vendidas.
Lucro total: US$ 3 milhões, aproximadamente @E5@ de dólares atuais.
Essa batalha consolidou sua reputação de “rei dos curtos de Wall Street” e mostrou o poder da informação privilegiada e do psicológico de mercado.
A autopenalização do gênio: prejuízo de US$ 3 milhões em algodão
Porém, a natureza humana às vezes vence o gênio.
Seu amigo Teddy Plais, autoridade no mercado de algodão, tinha informações privilegiadas. Plais era otimista com o algodão, e Livermore, querendo “provar sua habilidade de operar em vários mercados”, foi manipulado. Mesmo com dados contrários ao que seu amigo dizia, acreditou nele e apostou 300 milhões de libras em contratos futuros de algodão — uma aposta muito maior do que sua capacidade.
Resultado: prejuízo de US$ 3 milhões, equivalente a toda a lucratividade de 1907 na venda a descoberto. Essa derrota violou suas três regras de ferro: nunca confiar cegamente em conselhos, nunca cobrir posições perdedoras, e nunca deixar que a narrativa supere o sinal de preço.
Na verdade, não foi uma traição do amigo, mas uma autopenalização do próprio gênio — o preço de uma aposta fracassada de um jogador.
Contra-ataque final: de US$ 50 mil a US$ 300 milhões
Após fracassar na negociação de algodão em 1915, Livermore ressurgiu de forma lendária.
Ele pediu proteção contra falência, negociou com credores para manter apenas US$ 50 mil de subsistência. Usou uma linha de crédito secreta obtida de antigos rivais, com a condição de que todas as operações fossem feitas por eles — uma espécie de monitoramento, que também o forçou a usar uma alavancagem de 1:5 (antes, usava 1:20).
Essas restrições ajudaram a restabelecer sua disciplina de trading.
Na mesma época, a Primeira Guerra Mundial explodiu, e os pedidos militares nos EUA aumentaram. Livermore percebeu que as ações da Bethlehem Steel ainda não refletiam essa tendência. O volume aumentava, mas o preço permanecia lateral — sinal clássico de acumulação.
A partir de julho de 1915, começou a comprar com 5% do capital a US$ 50. Em agosto, ao ultrapassar US$ 60, aumentou a posição para 30%. Em setembro, ao recuar para US$ 58, recusou-se a parar de perder, acreditando que a tendência de alta não tinha sido rompida. Em janeiro do ano seguinte, o preço disparou para US$ 700, e ele saiu com um lucro de 14 vezes — US$ 50 mil viraram US$ 300 milhões.
A maldição do dinheiro: três casamentos e quatro falências
Nas décadas seguintes, Livermore continuou sua saga de dinheiro e mulheres.
Criou uma firma de trading, lucrou US$ 15 milhões, e tinha 60 funcionários. Em 1925, ganhou US$ 10 milhões negociando trigo e milho. Em 1929, na grande crise de Wall Street, lucrou US$ 1 bilhão vendendo a descoberto (equivalente a cerca de US$ 15 bilhões atuais).
Mas, nos anos seguintes, esse dinheiro foi consumido por divórcios, impostos, gastos excessivos e outros fatores.
Após um longo divórcio de sua primeira esposa, Nattie, casou-se com a dançarina Dorothy, com quem teve dois filhos. Mas também teve um relacionamento complicado com a atriz de ópera Anita, e usou o nome dela para batizar um iate de luxo. Dorothy se tornou cada vez mais dependente de álcool.
Em 1931, divorciou-se novamente, e Dorothy recebeu US$ 10 milhões de partilha. A casa que compraram por US$ 3,5 milhões foi vendida por apenas US$ 222 mil. Essa mansão, símbolo de anos de felicidade, foi demolida, e a depressão de Livermore se aprofundou. As joias e alianças de casamento que deu a Dorothy foram vendidas por pouco — um golpe mortal para seu psicológico.
Esse detalhe mostra duas coisas: que o gênio não suporta humilhação emocional, e que mulheres divorciadas podem ser assustadoras.
Em 1932, aos 55 anos, conheceu a socialite divorciada Harriet Mets Nobile, apelidada de “viúva social”. Ela pode ter interpretado mal a situação financeira de Livermore — que já devia US$ 2 milhões. Após sua última falência, em 1934, tiveram que deixar o apartamento em Manhattan, vendendo joias para sobreviver.
O último escuro: rumo ao irreversível
Em novembro de 1940, Harriet se suicidou no quarto de hotel com a mesma pistola que Livermore usou. A carta dizia que não suportava a pobreza e o alcoolismo dele. Livermore escreveu em seu diário: “Eu matei todos que se aproximaram de mim.”
Um ano depois, em 28 de novembro de 1941, no mesmo hotel, imerso na depressão, Livermore disparou na própria têmpora. Era a mesma arma que usara em 1907, quando fez uma grande operação a descoberto — parecia um ciclo fatal.
No bolso, restaram apenas US$ 8,24 em dinheiro e um bilhete de aposta de cavalos vencido. Apenas 15 pessoas compareceram ao seu funeral, incluindo dois credores.
Até 1999, só após uma campanha de fãs seu nome foi gravado na lápide: “Sua vida prova que a lâmina mais afiada do mercado também pode ferir a si mesmo.”
O legado lendário: as regras centrais da Bíblia do trading
Livermore passou por altos e baixos, deixando uma filosofia de trading que Buffett, Soros e Peter Lynch consideram sagrada:
A vida de Livermore é a explicação dessas regras — ele dominava o mercado, mas foi vencido por si mesmo; venceu Wall Street, mas não conseguiu vencer sua própria natureza.
“The New Yorker” avaliou: ‘Livermore era preciso como uma faca cirúrgica no mercado, mas cego como um bêbado na vida amorosa. Passou a vida vendendo a descoberto, mas sempre apostando na paixão — e ambas o destruíram.’"
De 5 dólares a bilhão, e de bilhão a 8,24 dólares, Livermore viveu uma vida que exemplifica a contradição entre dinheiro e desejo — quando alguém domina as leis do mercado, mas não consegue controlar seus próprios demônios, toda riqueza se desfaz em pó.