PER: A métrica que todo investidor deve dominar (e suas armadilhas ocultas)

Quando te sentas a analisar uma empresa para investir, há um número que aparece em todo o lado: o PER. Mas aqui vem o verdadeiro segredo: a maioria dos investidores usa-o mal. Este artigo levar-te-á além do cálculo básico para te mostrar como interpretar realmente esta métrica e, mais importante ainda, quando desconfiar dela.

Porque o PER se tornou o favorito de Wall Street

O PER (Price/Earnings Ratio) mede quantas vezes a capitalização bolsista de uma empresa equivale aos seus lucros anuais. Dito de forma mais simples: é a relação entre o que custa comprar uma empresa na bolsa e o que ela ganha num ano.

Imagina que uma empresa tem um PER de 15. Isso significa que os seus lucros atuais (projetados a 12 meses) demorariam 15 anos a “pagar” o preço total da empresa. É um indicador tão fundamental que faz parte do conjunto de ratios essenciais, juntamente com o BPA (Benefício Por Ação), o P/VC, o EBITDA, o ROE e o ROA.

Por que é tão importante? Porque o PER vai além de ser um simples número comparativo. Permite-te detectar se uma empresa está a crescer genuinamente ou apenas a inflacionar números a curto prazo. Historicamente, tem sido o farol de investidores como Warren Buffett e outros discípulos do Value Investing.

Como calcular o PER (duas formas, mesmo resultado)

A beleza do PER reside na sua simplicidade. Existem dois caminhos para obtê-lo:

Opção 1: Usando magnitudes totais da empresa
$$\text{PER} = \frac{\text{Capitalização de Mercado}}{\text{Benefício Líquido Total}}$$

Opção 2: Usando dados por ação
$$\text{PER} = \frac{\text{Preço da Ação}}{\text{BPA (Benefício Por Ação)}}$$

Ambas as fórmulas fornecem o mesmo resultado. O importante é que os dados estão ao alcance de qualquer um: em plataformas financeiras como Yahoo Finance (onde verás “P/E” em sites anglo-saxónicos) ou na Infobolsa (onde aparece diretamente como PER).

Vejamos dois exemplos práticos:

Exemplo A: Uma empresa com capitalização de 2.600 milhões de dólares e lucros anuais de 658 milhões.
$$\text{PER} = \frac{2.600}{658} \approx 3,95$$

Exemplo B: Uma ação a 2,78$ com BPA de 0,09$.
$$\text{PER} = \frac{2,78}{0,09} \approx 30,9$$

A diferença é abismal. Mas o que isso significa realmente?

O comportamento real do PER nos mercados

A teoria diz que quando o PER diminui e o preço da ação sobe, estamos perante uma empresa em expansão de lucros. Meta Platforms (Facebook) foi o exemplo clássico: durante anos, o seu PER caía consistentemente enquanto a ação subia sem parar. Isso indicava que estavam a ganhar mais lucros a cada trimestre.

Mas aqui vem a armadilha: a realidade nem sempre funciona assim.

Boeing é um caso ilustrativo. O seu PER mantém-se relativamente estável numa faixa, mas a ação sobe e desce sem que o ratio mude proporcionalmente. Porquê? Factores externos como mudanças nas taxas de juro, ciclos económicos ou percepções de risco do mercado que o PER não capta.

Meta experienciou isso cruelmente no final de 2022. Apesar de os seus ratios PER ficarem mais atrativos (baixavam), a ação despencou. O culpado: os aumentos das taxas da Fed fizeram os investidores reavaliarem completamente o setor tecnológico. O PER não previu isso.

Variantes do PER que deves conhecer

Nem todos os PER são iguais. Existem versões mais sofisticadas que muitos analistas preferem.

O PER de Shiller: Quando um ano não é suficiente

A crítica clássica ao PER é que usa lucros de apenas um ano. E se esse ano foi excecionalmente bom? Ou excecionalmente mau? O PER de Shiller resolve isso usando a média dos lucros dos últimos 10 anos, ajustados pela inflação.

$$\text{PER de Shiller} = \frac{\text{Capitalização de Mercado}}{\text{Lucro Médio dos Últimos 10 Anos (ajustado pela inflação)}}$$

A teoria por trás é que 10 anos de dados permitem prever com maior precisão os próximos 20 anos. No entanto, tem os seus detractores, que argumentam que os últimos 10 anos podem não ser representativos do futuro.

O PER Normalizado: Olhando além do benefício

Aqui é onde a análise se torna cirúrgica. Em vez de dividir a capitalização pelo benefício líquido, ajustas ambos os lados:

  • Numerador: Capitalização - Ativos Líquidos + Dívida Financeira
  • Denominador: Free Cash Flow (em vez de benefício líquido)

Por que isto importa? Quando o Santander comprou o Banco Popular por 1 euro, tecnicamente não foi uma compra barata. Tiveram que assumir uma dívida colossal, obrigando o BBVA e a Bankia a retirarem-se. O PER normalizado teria mostrado essa realidade.

Como interpretar o PER (mas cuidado com a simplicidade)

Existe uma tabela de referência comum:

Rango Interpretação
0-10 Baixo, potencialmente atrativo (mas cuidado: pode ser uma armadilha)
10-17 Zona ótima segundo analistas (ideal para crescimento a médio prazo)
17-25 Sinal de crescimento recente ou bolha incipiente
25+ Ou projeções muito positivas, ou bolha clara

Mas aqui está o grande segredo: Esta tabela é quase inútil sem contexto.

Um PER baixo nem sempre é uma boa notícia. Empresas à beira da falência têm PER baixo precisamente porque os investidores perderam a confiança. Da mesma forma, um PER alto numa empresa de biotecnologia em crescimento é completamente diferente de um PER alto numa ação que está a formar uma bolha.

O PER varia dramaticamente entre setores

Isto é crítico: nunca compares PER de empresas de setores diferentes.

AcelorMittal, produtora de aço, tem um PER de 2,58. Zoom Video, a plataforma que o mundo adotou durante a pandemia, tem um PER de 202,49. Qual é melhor? A questão não faz sentido.

Os bancos, a indústria manufatureira e o setor energético costumam ter PER baixos por natureza. As tecnológicas, biotech e empresas em crescimento acelerado têm PER altos. É como comparar peras com laranjas. O mercado espera margens de lucro diferentes de cada setor.

Porque o Value Investing se obsessiona com o PER

Os praticantes do Value Investing (como os fundos Horos Value Internacional com PER 7,24 ou Cobas Internacional com PER 5,46) procuram exatamente isto: boas empresas a bom preço.

O PER baixo é o seu sinal de compra. Mas são disciplinados: verificam que o PER baixo não seja por má gestão, mas por oportunidade temporária de mercado. Aqui reside a diferença entre investidores que perdem dinheiro em “armadilhas de valor” e aqueles que constroem riqueza.

As limitações que ninguém quer admitir

O PER tem deficiências severas:

  1. Usa apenas um ano de dados para projetar o futuro, ignorando ciclos económicos
  2. É inaplicável a empresas sem lucros (startups, empresas pré-rentáveis)
  3. É estático, não dinâmico - não captura a trajetória de gestão nem mudanças de mercado
  4. Faz água com empresas cíclicas - no pico do ciclo o PER parece atrativo, no fundo do ciclo parece terrível

A combinação que funciona: PER + outras métricas

Se baseares todas as tuas decisões no PER, vais fracassar. Os investidores profissionais cruzam sempre o PER com:

  • BPA: Para ver crescimento de lucros por ação
  • Preço/Valor Contabilístico (P/VC): Para detectar se há valor líquido real
  • ROE e ROA: Para medir eficiência operacional
  • Free Cash Flow: Para verificar se os lucros são reais (não contáveis)

Além disso, exige análise aprofundada da composição do negócio. Aquele benefício alto vem do negócio principal ou de uma venda isolada de um ativo? A resposta muda tudo.

O que realmente importa: Perspectiva integral

O PER é uma ferramenta excelente para fazer uma triagem inicial de empresas no mesmo setor e região. É fácil de calcular, amplamente disponível e eficiente para comparações rápidas.

Mas nunca é suficiente. A história está cheia de empresas com PER atrativo que colapsaram porque a gestão era péssima, o setor entrou em declínio ou os números eram cosméticos.

Um investimento vencedor exige: dedicar tempo a entender realmente a empresa, combinar múltiplas métricas, considerar o contexto setorial e macroeconómico, e reconhecer que mesmo com todos esses dados, o futuro sempre reserva surpresas.

O PER é o teu ponto de partida. Mas nunca deve ser o teu ponto de chegada.

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