No mundo das criptomoedas, as narrativas sucedem-se a um ritmo frenético. Enquanto o Crypto Twitter se diverte a criar “miner meme” sobre colapsos iminentes e perspectivas apocalípticas do mercado, existe um grupo que pensa de forma completamente diferente: os mineiros de Bitcoin. Ao contrário dos traders que dependem da emoção e dos ciclos de sentimento, os mineiros operam segundo equações matemáticas rígidas. A sua sobrevivência depende de fatores mecânicos: quanto ganham com o protocolo e quanto gastam em energia. Hoje, com o Bitcoin rondando os 90.67K dólares, esta equação está a tornar-se cada vez mais apertada.
Como funciona a economia da mineração
O sistema é surpreendentemente simples na sua estrutura. O protocolo Bitcoin distribui 3.125 BTC por cada bloco minerado, com um bloco gerado em média a cada 10 minutos. Isto traduz-se em cerca de 144 blocos diários, ou 450 BTC por dia a nível global. Num mês, toda a rede de mineração produz aproximadamente 13.500 BTC. Ao preço atual, isto representa um valor bruto de cerca de 1,2 mil milhões de dólares mensais.
No entanto, esta “fatia” deve ser distribuída entre uma potência computacional recorde de 1.078 Exahash por segundo (EH/s). O resultado? Cada Terahash de potência computacional gera apenas 3,6 cêntimos de dólar de receita diária. É nesta base económica microscópica que repousa a segurança de uma rede de 1,7 triliões de dólares—uma realidade bem distante do glamour dos “miner meme” que circulam nas redes sociais.
Os custos: o verdadeiro teste da rentabilidade
A rentabilidade dos mineiros não se mede apenas pelos lucros brutos. Os custos operacionais são concretos e variáveis. A eletricidade representa a rubrica mais crítica, e difere drasticamente consoante a geografia e a eficiência do hardware. Um mineiro moderno que utiliza dispositivos de topo como o S21, com consumos de 17 joules por Terahash e acesso a energia económica (0,05-0,06 dólares por kWh), pode ainda operar com lucro. Mas quem possui equipamentos antigos ou paga tarifas energéticas elevadas encontra-se numa posição precária.
Segundo estimativas da CoinShares de dezembro de 2024, o custo em dinheiro para produzir um único BTC entre os mineiros cotados no terceiro trimestre era de cerca de 55.950 dólares. A Universidade de Cambridge estima atualmente o custo em torno de 58.500 dólares. Para os dois maiores operadores cotados:
Marathon Digital reporta custos energéticos de 39.235 dólares por BTC
Riot Platforms situa-se em 46.324 dólares por BTC
A estes níveis de custo, a margem de lucro em dinheiro permanece robusta mesmo com o Bitcoin a 90K. Mas o quadro complica-se bastante quando se consideram os custos não monetários.
O custo total escondido
Amortizações, depreciações, incentivos acionistas e outras passivos contabilísticos transformam a mineração numa atividade de alta intensidade de capital. Uma vez incorporados estes elementos, o custo total para extrair um BTC pode facilmente ultrapassar os 100.000 dólares. A CoinShares estima o custo total de mineração em torno de 106.000 dólares. A Marathon Digital, embora com custos energéticos controlados, encontra-se a pagar mais de 110.000 dólares por BTC uma vez considerados todos os fatores.
Este dado revela o verdadeiro dilema: ao preço atual de 90.670 dólares, muitos mineiros já operam em perda contabilística, mesmo mantendo um fluxo de caixa positivo. É esta discrepância que explica porque cada vez mais mineiros optam por acumular os BTC minerados em vez de vendê-los imediatamente, transformando a mineração de uma atividade puramente extrativa numa estratégia de acumulação.
Dois cenários de equilíbrio
A análise dos custos revela a existência de duas realidades mineiras distintas:
Cenário 1 - Mineiros industriais eficientes: Operadores com hardware moderno, acesso a energia de baixo custo e balanços enxutos podem manter um fluxo de caixa positivo enquanto o Bitcoin estiver acima dos 50.000 dólares. Com o ativo atualmente a 90K, ganham mais de 40.000 dólares de lucro em dinheiro por BTC minerado, mesmo podendo operar com perda contabilística.
Cenário 2 - Operadores marginais: Aqueles que incluem todos os custos não monetários já estão abaixo do ponto de equilíbrio económico. Podem continuar a minerar graças ao fluxo de caixa positivo, mas a cada mês acumulam perdas contabilísticas cada vez maiores. Esta pressão incentiva-os a reter os BTC em vez de vendê-los, na esperança de uma recuperação dos preços.
Para onde vai o setor de mineração?
Enquanto o fluxo de caixa permanecer positivo, a mineração continuará. Atualmente, com o Bitcoin a 90K e a dificuldade de rede estável, o sistema mostra sinais de resiliência. Os mineiros mais fortes como a Marathon aproveitam as suas economias de escala e o acesso aos mercados de capitais para prosperar.
Mas o verdadeiro risco surge se o acesso ao capital se restringir para os mineiros, ou se os preços caírem ainda mais. Nesse caso, as margens comprimiriam-se drasticamente. Os mineiros mais frágeis seriam forçados a liquidar os BTC acumulados, criando uma pressão de venda adicional. O efeito de alavanca positivo pararia.
Por agora, o “miner meme” da sobrevivência continua mais a brincar do que uma realidade iminente. Mas é uma brincadeira construída sobre fundamentos cada vez mais frágeis, onde o fluxo de caixa positivo mascara perdas contabilísticas crescentes.
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O dilema económico dos mineiros: quando o "meme da sobrevivência" se torna realidade
No mundo das criptomoedas, as narrativas sucedem-se a um ritmo frenético. Enquanto o Crypto Twitter se diverte a criar “miner meme” sobre colapsos iminentes e perspectivas apocalípticas do mercado, existe um grupo que pensa de forma completamente diferente: os mineiros de Bitcoin. Ao contrário dos traders que dependem da emoção e dos ciclos de sentimento, os mineiros operam segundo equações matemáticas rígidas. A sua sobrevivência depende de fatores mecânicos: quanto ganham com o protocolo e quanto gastam em energia. Hoje, com o Bitcoin rondando os 90.67K dólares, esta equação está a tornar-se cada vez mais apertada.
Como funciona a economia da mineração
O sistema é surpreendentemente simples na sua estrutura. O protocolo Bitcoin distribui 3.125 BTC por cada bloco minerado, com um bloco gerado em média a cada 10 minutos. Isto traduz-se em cerca de 144 blocos diários, ou 450 BTC por dia a nível global. Num mês, toda a rede de mineração produz aproximadamente 13.500 BTC. Ao preço atual, isto representa um valor bruto de cerca de 1,2 mil milhões de dólares mensais.
No entanto, esta “fatia” deve ser distribuída entre uma potência computacional recorde de 1.078 Exahash por segundo (EH/s). O resultado? Cada Terahash de potência computacional gera apenas 3,6 cêntimos de dólar de receita diária. É nesta base económica microscópica que repousa a segurança de uma rede de 1,7 triliões de dólares—uma realidade bem distante do glamour dos “miner meme” que circulam nas redes sociais.
Os custos: o verdadeiro teste da rentabilidade
A rentabilidade dos mineiros não se mede apenas pelos lucros brutos. Os custos operacionais são concretos e variáveis. A eletricidade representa a rubrica mais crítica, e difere drasticamente consoante a geografia e a eficiência do hardware. Um mineiro moderno que utiliza dispositivos de topo como o S21, com consumos de 17 joules por Terahash e acesso a energia económica (0,05-0,06 dólares por kWh), pode ainda operar com lucro. Mas quem possui equipamentos antigos ou paga tarifas energéticas elevadas encontra-se numa posição precária.
Segundo estimativas da CoinShares de dezembro de 2024, o custo em dinheiro para produzir um único BTC entre os mineiros cotados no terceiro trimestre era de cerca de 55.950 dólares. A Universidade de Cambridge estima atualmente o custo em torno de 58.500 dólares. Para os dois maiores operadores cotados:
A estes níveis de custo, a margem de lucro em dinheiro permanece robusta mesmo com o Bitcoin a 90K. Mas o quadro complica-se bastante quando se consideram os custos não monetários.
O custo total escondido
Amortizações, depreciações, incentivos acionistas e outras passivos contabilísticos transformam a mineração numa atividade de alta intensidade de capital. Uma vez incorporados estes elementos, o custo total para extrair um BTC pode facilmente ultrapassar os 100.000 dólares. A CoinShares estima o custo total de mineração em torno de 106.000 dólares. A Marathon Digital, embora com custos energéticos controlados, encontra-se a pagar mais de 110.000 dólares por BTC uma vez considerados todos os fatores.
Este dado revela o verdadeiro dilema: ao preço atual de 90.670 dólares, muitos mineiros já operam em perda contabilística, mesmo mantendo um fluxo de caixa positivo. É esta discrepância que explica porque cada vez mais mineiros optam por acumular os BTC minerados em vez de vendê-los imediatamente, transformando a mineração de uma atividade puramente extrativa numa estratégia de acumulação.
Dois cenários de equilíbrio
A análise dos custos revela a existência de duas realidades mineiras distintas:
Cenário 1 - Mineiros industriais eficientes: Operadores com hardware moderno, acesso a energia de baixo custo e balanços enxutos podem manter um fluxo de caixa positivo enquanto o Bitcoin estiver acima dos 50.000 dólares. Com o ativo atualmente a 90K, ganham mais de 40.000 dólares de lucro em dinheiro por BTC minerado, mesmo podendo operar com perda contabilística.
Cenário 2 - Operadores marginais: Aqueles que incluem todos os custos não monetários já estão abaixo do ponto de equilíbrio económico. Podem continuar a minerar graças ao fluxo de caixa positivo, mas a cada mês acumulam perdas contabilísticas cada vez maiores. Esta pressão incentiva-os a reter os BTC em vez de vendê-los, na esperança de uma recuperação dos preços.
Para onde vai o setor de mineração?
Enquanto o fluxo de caixa permanecer positivo, a mineração continuará. Atualmente, com o Bitcoin a 90K e a dificuldade de rede estável, o sistema mostra sinais de resiliência. Os mineiros mais fortes como a Marathon aproveitam as suas economias de escala e o acesso aos mercados de capitais para prosperar.
Mas o verdadeiro risco surge se o acesso ao capital se restringir para os mineiros, ou se os preços caírem ainda mais. Nesse caso, as margens comprimiriam-se drasticamente. Os mineiros mais frágeis seriam forçados a liquidar os BTC acumulados, criando uma pressão de venda adicional. O efeito de alavanca positivo pararia.
Por agora, o “miner meme” da sobrevivência continua mais a brincar do que uma realidade iminente. Mas é uma brincadeira construída sobre fundamentos cada vez mais frágeis, onde o fluxo de caixa positivo mascara perdas contabilísticas crescentes.